Acordei sem um puto.
Rainha de um reino perdido,
desolado, mas muito digno.
Majestoso.
Entendi a falta de clareza dos fenômenos
a indelicadeza do sarcasmo mal embasado
a crueza dos amores não correspondidos e das literaturas de cordel
o laço com cerol que arremata histórias sem contexto.
Vi que os dias de maio ainda são os mais belos. Fotografia perfeita para filme de um diretor ainda-por-vir.Desce um café meio amargo em algumas xícaras de esperança e desilusão.
Somem-se todos os juros de uma dívida imperdoável e cobre com o sangue daquele desejo mais profundo, e indizível.
Sim, eu sou rainha do meu mundo. Inventora dos meus clichês e cafetina do meu corpo. Dona do meu prazer e da minha dor.
Já a cidade e a ruína,
o Pai, o morto, e
ao fundo,
o som das asas das borboletas gigantes azuis,
que sobrevoam a China.
понедељак, мај 8
субота, мај 6
E agora?
se?
mas, nada.
Retiraram a mesa. Agora vagam, estapafúrdios: o café e o sono, o pão e a fome, as flores sem jardim, a tesoura, o veneno, o pão-de-queijo, o ladrão boliviano, as arestas, as neuroses e as encenações.
Agora que não há mais lugar,
tudo na mais perfeita desordem.
Eu, vc e um outro não temos um passado. Somos assaltados pela presença sorrateira um do outro em locais submersos,
irrealizáveis.
se?
mas, nada.
Retiraram a mesa. Agora vagam, estapafúrdios: o café e o sono, o pão e a fome, as flores sem jardim, a tesoura, o veneno, o pão-de-queijo, o ladrão boliviano, as arestas, as neuroses e as encenações.
Agora que não há mais lugar,
tudo na mais perfeita desordem.
Eu, vc e um outro não temos um passado. Somos assaltados pela presença sorrateira um do outro em locais submersos,
irrealizáveis.
среда, мај 3
Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.
Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.
Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'
недеља, април 30
Somos todos poetas
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
Murilo Mendes
Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.
Murilo Mendes
среда, април 26
Interlúdio
As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
Cecília Meirelles
As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
Cecília Meirelles
понедељак, април 24
Todas as palavras me escapam.
Todos sairam de férias
Todas as luas se foram
E as crianças dormem pra sempre
Só sei do meu desencontro
de mim para com o mundo
de mim para com os deuses, que abandonei antes do tempo
de mim para com meu tempo
de meu tempo para com meu espaço
de meus desejos para com meus cansaços
de meus reflexos para com meus reflexos,
e de todo o nada que sobra deles,
que é tudo que não se reduz a eles
e que persiste, insiste, dura e grita o esboço das palavras que já não me querem.
Aquela ruína de pé,gentalha que rebola, que rebola e fede,
lembra orgulhosa das coisas que poderiam ter sido diferentes
e é tão mais bela que a calculadora empenhada, símbolo infesto,
numa mesa de bar.
Choco-me contra o espelho, e o despedaçar nao produz nada além de um belo espetáculo
Todos sairam de férias
Todas as luas se foram
E as crianças dormem pra sempre
Só sei do meu desencontro
de mim para com o mundo
de mim para com os deuses, que abandonei antes do tempo
de mim para com meu tempo
de meu tempo para com meu espaço
de meus desejos para com meus cansaços
de meus reflexos para com meus reflexos,
e de todo o nada que sobra deles,
que é tudo que não se reduz a eles
e que persiste, insiste, dura e grita o esboço das palavras que já não me querem.
Aquela ruína de pé,gentalha que rebola, que rebola e fede,
lembra orgulhosa das coisas que poderiam ter sido diferentes
e é tão mais bela que a calculadora empenhada, símbolo infesto,
numa mesa de bar.
Choco-me contra o espelho, e o despedaçar nao produz nada além de um belo espetáculo
четвртак, април 20
Esta desmedida e inelutável insistência com que o azul me retorna sempre cativante e altivo, dissipando agruras, gripes, fantasmas e neuroses... nunca é um abandono da reflexividade ou do pensamento, não há irracional que me tome as redéas. É apenas encantamento, a mais potente e viril das razões...que não pertence, não é próprio de mim ou de tu, não se esgota na unidade determinada do meu organismo ou da sua psiquê.
O azul me escorre por toda manhã.
A configuração dos traços fredianos se enlançou enamorada dos cactos que moram na minha janela.
Eu não sei se os marcadores de texto do meu livro lembram confetes de carnaval ou bandeirolas de festa junina.
Há tb uma questão de indecidível amor pelos socrátes do mundo... pobres escravos...sejam eles de Hegel, de Nietzsche, de Angola, de Atenas, de mim...
Porque eu, meus amigos, queria ser meu pai, minha mãe e meu filho. O Satanás, Deus, e a virgem. Frederico, Salomé,vinícius,Severino, Catarina, Fernando, Ernesto,Luís...e EU.
Mas pensando um pouco melhor, querer é exagero... Já não sei se sou capaz de querer... tomo por hábito e costume esta mania de escrever e copio, copio, roubo e copio, para rir sacudidamente...
sarcastimente...
docemente...
livremente...
posto que,
nada.
O azul me escorre por toda manhã.
A configuração dos traços fredianos se enlançou enamorada dos cactos que moram na minha janela.
Eu não sei se os marcadores de texto do meu livro lembram confetes de carnaval ou bandeirolas de festa junina.
Há tb uma questão de indecidível amor pelos socrátes do mundo... pobres escravos...sejam eles de Hegel, de Nietzsche, de Angola, de Atenas, de mim...
Porque eu, meus amigos, queria ser meu pai, minha mãe e meu filho. O Satanás, Deus, e a virgem. Frederico, Salomé,vinícius,Severino, Catarina, Fernando, Ernesto,Luís...e EU.
Mas pensando um pouco melhor, querer é exagero... Já não sei se sou capaz de querer... tomo por hábito e costume esta mania de escrever e copio, copio, roubo e copio, para rir sacudidamente...
sarcastimente...
docemente...
livremente...
posto que,
nada.
четвртак, април 13
Penso na vida. Todos os sistemas que poderei edificar jamais igualarão os meus gritos de homem ocupado em refazer a sua vida... Estas forças informuladas que me assaltam deverão necessariamente ser um dia acolhidas pela minha razão, deverão instalar-se no pensamento, essas forças que do exterior tem a forma de um grito. Há gritos inbtelectuais, gritos que provêm da finura das médulas. É a isso que eu chamo a Carne.Não separo o meu pensamento da minha vida. Refaço a cada uma das vibrações da minha lingua todos os caminhos do pensamento da minha carne... Mas que sou eu no meio dessa teoria da Carne ou melhor, da existência? Sou um homemm que perdeu a vida e que procura por todos os meios fazer-lhe retomar o seu lugar... Mas é preciso que eu inspecione este sentido da carne que deve dar-me uma metafísica do Ser e o conhecimento definitivo da Vida.
Antonin Artaud, in: Position de la chair
Antonin Artaud, in: Position de la chair
среда, април 12
Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: «Não faças isto, não faças aquilo. Renuncia. Domina-te...». Gosto, pelo contrário, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da árvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, não se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. «É a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; é actuando que deixaremos», eis o que amo, eis o meu próprio placitum! Mas eu não quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, não quero essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia.
Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'
Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'
недеља, април 9
Rídicula esta posição de barriga pra baixo. Rastejas. Furas a parede na sua base. Esperas escapar-te, como um rato. Semelhante `a sombra, à manhã, na estrada.
E essa vontade de permanecer de pé. apesar da fadiga e da fome?
Um buraco, era apenas um buraco,
o destino do livro.
( Um buraco-polvo, a tua obra?
O polvo foi pendurado no teto e os tentáculos começaram a brilhar.)
Era apenas um buraco
na parede,
tão estreito que jamais
pudeste introduzir-se nele
para fugir.
Desconfiai das habitações. Nem sempre são acolhedoras.
Edmond Jabès
E essa vontade de permanecer de pé. apesar da fadiga e da fome?
Um buraco, era apenas um buraco,
o destino do livro.
( Um buraco-polvo, a tua obra?
O polvo foi pendurado no teto e os tentáculos começaram a brilhar.)
Era apenas um buraco
na parede,
tão estreito que jamais
pudeste introduzir-se nele
para fugir.
Desconfiai das habitações. Nem sempre são acolhedoras.
Edmond Jabès
уторак, април 4
понедељак, април 3
четвртак, март 30
Areia, lodo, sal e terra
Do patético espetáculo à bravura vivida
O inavegável
imprevisto,
cansado,
morto.
Levanta. Disforme e díspare.incompleto, inconcluso, impotente.Ressurge. Anda de ressaca do mundo pela vida e da vida pelo mundo. Onde é que faz sentido?
Este atordoamento vazio pululante.Entope. Entorpe. Resseca. Como os cigarros ao corpo em uma ação contínua, independente do ato voluntário, muma autonomia cancerosa, ensadecida.O ultimo cigarro e a ultima cerveja e o unico beijo se foram a várias horas. Mas o cigarro resseca-me e a cerveja ressaca-me.
Somente beijos se perdem em sua efemeridade.
Acho que peguei carona para o lado oposto da vida.
Do patético espetáculo à bravura vivida
O inavegável
imprevisto,
cansado,
morto.
Levanta. Disforme e díspare.incompleto, inconcluso, impotente.Ressurge. Anda de ressaca do mundo pela vida e da vida pelo mundo. Onde é que faz sentido?
Este atordoamento vazio pululante.Entope. Entorpe. Resseca. Como os cigarros ao corpo em uma ação contínua, independente do ato voluntário, muma autonomia cancerosa, ensadecida.O ultimo cigarro e a ultima cerveja e o unico beijo se foram a várias horas. Mas o cigarro resseca-me e a cerveja ressaca-me.
Somente beijos se perdem em sua efemeridade.
Acho que peguei carona para o lado oposto da vida.
среда, март 29
sinto que estou caindo em um buraco fundo fundo fundo
esse buraco é apertado, meu corpo está esprimido
comprimido na minha queda.
esse buraco não tem luz mas também não é escuro
não vejo nada nele, não sei se ele é, ou será, ou já foi?, vazio
ainda estou em queda, não sei do meu destino
não vejo O Buraco, apenas sinto a vertigem que vem dele que vem de mim que fica em mim que não sai de mim que não sai de mim que nao...
não sei por quê tombei, nem sei se foi um tombo
não sei se estou a cair, não sei qual o meu movimento
se realmente existo, além desse buraco inquieto
que cai fundo invisível
O Redemoinho.
esse buraco é apertado, meu corpo está esprimido
comprimido na minha queda.
esse buraco não tem luz mas também não é escuro
não vejo nada nele, não sei se ele é, ou será, ou já foi?, vazio
ainda estou em queda, não sei do meu destino
não vejo O Buraco, apenas sinto a vertigem que vem dele que vem de mim que fica em mim que não sai de mim que não sai de mim que nao...
não sei por quê tombei, nem sei se foi um tombo
não sei se estou a cair, não sei qual o meu movimento
se realmente existo, além desse buraco inquieto
que cai fundo invisível
O Redemoinho.
недеља, март 26
Chega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento,
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.
Adormeço sem dormir, ao relento da vida.
É inútil dizer-me que as ações têm conseqüências.
É inútil eu saber que as ações usam conseqüências.
É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.
Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.
Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.
Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.
A.C
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.
Adormeço sem dormir, ao relento da vida.
É inútil dizer-me que as ações têm conseqüências.
É inútil eu saber que as ações usam conseqüências.
É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.
Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.
Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.
Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.
A.C
среда, март 22
Qual a diferença real entre suicídio e homicídio?
Não tenho nome. Ele não tem nome. Não é possível a ninguém o nome. Não. Também não vemos ninguém neste lugar. Não há nada para se ver aqui não. Triturado, o cigarro acesso era uma luz. Não tem luz. O cigarro acesso era chama e fumaça. Em você era desejo, alívio, vício, mal, costume.
Dois. Não. Único. Tudo. Exceção.
Na janela, a espreitar o corpo, o desejo, o vício, o mal, o costume e a doença, estava não. Não estava ninguém também naquela mesma noite ainda na janela. Ainda não. Foi somente por um acaso que o corpo pediu o escuro do cigarro que não é luz que não quer iluminar. Não foi acaso. Não? Do outro lado o desejo do cigarro não era o mesmo desejo do olhar, da luz, e da sua falta. Não havia cigarro lá. Nem luz. Não havia nada, até então. De um lado cigarro do outro não, eles se olhavam, mas se recusavam a ser vistos.
Essa cena se repetiu uma duas três quatro cinco seis vezes: janela noite luz sua falta cigarro boca fumaça desejo.
Ele te conhece. Não: ele conhece ele você.
Você o quer? Não. Ele te quer? Não: ele quer ele você.
Ele pode? Não. Mas ele não espera, não aguarda; ele avança sobre você, ele olha para você. Ele só sabe ele você. E você? Não.
Uma noite sem você. Sem ele você. Sem dúvida, você já não é você, nem ele, nem ele você. Não. Você ele. Você aparece. Seu corpo já traga o cigarro, já sente o desejo que queima a garganta. Aquele é ele. Não. Aquele é você ele. A janela é desejo, o cigarro é escuridão, a fumaça é noite, a boca é luz.
Dia após dia. Não. Seu encontro é noturno, às escuras, com o cigarro (ora, não seja covarde! com quem?). Noite após noite seu encontro era com ele. Não era. De fato, seu encontro era com você ele. E o dele? Não: com ele você. Com quem afinal? Quando vocês, os dois e seus múltiplos, permitiriam, finalmente, um encontro de todos com ninguém? Não? Essa era a sua pergunta. Não, era a sua angústia. Seria a dele? Não.
Na décima quarta noite, após o primeiro olhar, ele você não suportou mais tanto esperar. Queria seguir, avançar, como ele sempre avançara, sempre. Não: você também deve confessar que passou a ir ao encontro dele. Foi chamado para olhar o corpo, a janela, ele. Mas ele não suportava mais tanta vontade, tanto guardar, não resistia mais a ele você. E mesmo que sentimento semelhante não rondasse sua cabeça, ainda que você quissesse ser somente não, você e você ele, talvez, por quê não?, ainda que seu corpo fosse feito de vício e de olhar, matéria desejo e desgaste, ainda assim, você nada poderia ter feito naquela noite, naquela sua décima quarta e última noite. Sua? Não. Dele? Não.
O vidro estilhaça: agora cacos no chão você irremediável. O disparo acertou seu peito em cheio manchando de sangue o corpo viciado caindo caído não sei aonde segura, não... Você rosna, somos dois animais tão inimigos, sou eu sozinho tudo o que ninguém jamais poderá transpor o corpo profanado pela própria merda puído pela vontade de quem vem e passa antes de chegar em algum lugar morrer morrer morrer é a minha vontade desde que olhei você, ao fim você ele, não ele você, não não não agora ele apenas você miseravelmente morto, não ainda vivo, você não se liga a ele e na sua apocalíptica hora de dor e morte você se despede de tudo quanto é possível oferecendo a sua morte a ele com o brinde de quem bebe o próprio sangue em luto e na ressurreição. Ele morreu. Não. Você. Não. Quem morreu?
"É triste já ter traçado diante dos olhos a daninha esperança de coisa nenhuma", você lia, ou será que lamentava, antecipadamente, sobre o futuro dele?
Dois. Não. Único. Tudo. Exceção.
Na janela, a espreitar o corpo, o desejo, o vício, o mal, o costume e a doença, estava não. Não estava ninguém também naquela mesma noite ainda na janela. Ainda não. Foi somente por um acaso que o corpo pediu o escuro do cigarro que não é luz que não quer iluminar. Não foi acaso. Não? Do outro lado o desejo do cigarro não era o mesmo desejo do olhar, da luz, e da sua falta. Não havia cigarro lá. Nem luz. Não havia nada, até então. De um lado cigarro do outro não, eles se olhavam, mas se recusavam a ser vistos.
Essa cena se repetiu uma duas três quatro cinco seis vezes: janela noite luz sua falta cigarro boca fumaça desejo.
Ele te conhece. Não: ele conhece ele você.
Você o quer? Não. Ele te quer? Não: ele quer ele você.
Ele pode? Não. Mas ele não espera, não aguarda; ele avança sobre você, ele olha para você. Ele só sabe ele você. E você? Não.
Uma noite sem você. Sem ele você. Sem dúvida, você já não é você, nem ele, nem ele você. Não. Você ele. Você aparece. Seu corpo já traga o cigarro, já sente o desejo que queima a garganta. Aquele é ele. Não. Aquele é você ele. A janela é desejo, o cigarro é escuridão, a fumaça é noite, a boca é luz.
Dia após dia. Não. Seu encontro é noturno, às escuras, com o cigarro (ora, não seja covarde! com quem?). Noite após noite seu encontro era com ele. Não era. De fato, seu encontro era com você ele. E o dele? Não: com ele você. Com quem afinal? Quando vocês, os dois e seus múltiplos, permitiriam, finalmente, um encontro de todos com ninguém? Não? Essa era a sua pergunta. Não, era a sua angústia. Seria a dele? Não.
Na décima quarta noite, após o primeiro olhar, ele você não suportou mais tanto esperar. Queria seguir, avançar, como ele sempre avançara, sempre. Não: você também deve confessar que passou a ir ao encontro dele. Foi chamado para olhar o corpo, a janela, ele. Mas ele não suportava mais tanta vontade, tanto guardar, não resistia mais a ele você. E mesmo que sentimento semelhante não rondasse sua cabeça, ainda que você quissesse ser somente não, você e você ele, talvez, por quê não?, ainda que seu corpo fosse feito de vício e de olhar, matéria desejo e desgaste, ainda assim, você nada poderia ter feito naquela noite, naquela sua décima quarta e última noite. Sua? Não. Dele? Não.
O vidro estilhaça: agora cacos no chão você irremediável. O disparo acertou seu peito em cheio manchando de sangue o corpo viciado caindo caído não sei aonde segura, não... Você rosna, somos dois animais tão inimigos, sou eu sozinho tudo o que ninguém jamais poderá transpor o corpo profanado pela própria merda puído pela vontade de quem vem e passa antes de chegar em algum lugar morrer morrer morrer é a minha vontade desde que olhei você, ao fim você ele, não ele você, não não não agora ele apenas você miseravelmente morto, não ainda vivo, você não se liga a ele e na sua apocalíptica hora de dor e morte você se despede de tudo quanto é possível oferecendo a sua morte a ele com o brinde de quem bebe o próprio sangue em luto e na ressurreição. Ele morreu. Não. Você. Não. Quem morreu?
"É triste já ter traçado diante dos olhos a daninha esperança de coisa nenhuma", você lia, ou será que lamentava, antecipadamente, sobre o futuro dele?
уторак, март 21
Quero saber
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com u te dou o meu
com uma condição: não nos compreender
Pablo Neruda (Últimos Poemas)
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com u te dou o meu
com uma condição: não nos compreender
Pablo Neruda (Últimos Poemas)
недеља, март 19
eu circeando,
ele leviano levando suas frivolidades na bolsa.
o outro não compreendendo porque está de pé.
ela escondendo do nada que é si mesma.
A presença esquiva dança perante a indiferença subjetiva do universo emaranhado,
estruturalmente vazio, conjunturalmente escroto, essencialmente fútil...
posso tecer teorias sobre todos os destinos e,
ainda assim,
ainda é assim
a ânsia humana não passa de um sonho histérico.
ele leviano levando suas frivolidades na bolsa.
o outro não compreendendo porque está de pé.
ela escondendo do nada que é si mesma.
A presença esquiva dança perante a indiferença subjetiva do universo emaranhado,
estruturalmente vazio, conjunturalmente escroto, essencialmente fútil...
posso tecer teorias sobre todos os destinos e,
ainda assim,
ainda é assim
a ânsia humana não passa de um sonho histérico.
четвртак, март 16
Quanto Mais Vela Mais Acesa
Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.
Elisa Lucinda
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.
Elisa Lucinda
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
недеља, март 12
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