субота, март 11
Perdi de vista ao longe, esta coisa que a gente chama de horizonte.Não consigo escrever com verdade. Me falaram que aquele que conta uma história é o único sobrevivente dela. Por isso não conto histórias, acho. Eu não vou chegar até o final. Estes rastros que deixam são as pistas pra algum dia, alguém contar que numa manhã de novembro nasceu uma menina, e que ela simplesmente não conseguiu entender o porque de tudo isso.
петак, март 10
Só por um momento.
Mas não.
"Vc não tem amor no coração."
Não importa, não pode escolher.
Não se adapta, não confere, não crê.
Meu apoio é uma prancha bamba num oceano que nunca existiu.
E a vida foram os olhos vermelhos que escondi de todos atrás de
um gracioso sorriso.
уторак, март 7
Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Álvaro de Campos
недеља, март 5
Virginia Woolf, in "Orlando".
петак, март 3
pontualmente me lembro de tudo.
Não me alcanço.
Meu corpo pesa toda essa realidade. Às 4 da manha... O espelho reflete o ardor dos meus olhos. Me espalho pela poltrona vermelha.
Ainda sinto a naúsea do último cigarro. A tv fala sozinha danças irrepreensíveis. A luz acesa, apagada, acesa, apagada... que diferença faz?
POr que que todo o tédio nunca termina bem?
Por que não fui buscar?
Por que c. buarque faz as vesgas ficarem lindas?
Hoje fui trabalhar e tomei muita chuva. Minha cabeça dói. Comprei livros e renovei o vermelho das unhas.
vi meu eu lírico discordar do eu poético, e o particular des-coincidir com o geral.Sei que não tenho forças, e transtornada, aceito mais um gole do meu próprio veneno.
Não, não é tristeza. Apenas febre e (...).
четвртак, март 2
"... talvez eu também tivesse de escrever a minha história com giz na calçada e me sentar ao lado para ouvir o que as pessoas dizem. Ao menos nos olharíamos um pouco de frente. Mas talvez ninguém prestasse atenção e tudo se apagasse de tanto pisarem em cima."
четвртак, фебруар 23
Mas, estou só também.
Choco-me de encontro a tudo isso, e ao mais que não se reduz. Que resulta? fragmentos que percorrem os arredores irregulares da minha mais sincera emoção.Tudo misturado, causando a naúsea típica de quem em seu interior fundiu o "de novo" e "ainda".
Que é meu tempo? Que tempo é esse que varia em mim? Eu vario nele?
уторак, фебруар 21
(Acho esquisito.)
Não me cabe saber.
Como exigir de outros meu apreço pela contemplação de abismos?
Ele vê o nada abissal, e ainda que sem asas,
vôa.
понедељак, фебруар 20
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar
Florbela Espanca
субота, фебруар 18
четвртак, фебруар 16
De filmes que me façam rir ou crescer
Não quero cervejas, nem butecos
Tanto faz o Sol, ou a cortina
A simplicidade dos pássaros
O dançar das árvores
A brisa que acaricia
Meu cachorro amigo e carente
Não os quero
Quero a introspecção da tristeza
A quietude desesperada de esperar nada
O calor dos dias quentes sem ventiladores
Todo abafo, toda a impossibilidade de escapar
Quero noticias de guerras
Estratagemas políticos
Seca, enchente, furacões
O podre dos homens
Pois a cada felicidade
Posso pensar em ser feliz sem você
Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.
Álvaro de Campos
уторак, фебруар 14
AQUELE CACTO lembrava os gestos desesperados; da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste; carnaubais, caatingas...
Era enorme; mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças.
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
privou a cidade de iluminação e energia:
- Era belo, áspero, intratável.
(Manuel Bandeira Petrópolis, 1925)
петак, фебруар 10
-Traz mais uma, por favor.
5 de fevereiro de 1972
pela primeira vez resolvi entregar-me a alguém. não me parecia uma boa hora para hesitações. tudo já estava marcado. como o final do livro, marcado. o cenário lindo e perfeito. nenhum dessarranjo sem flores, nenhumas das damas sem honra, nenhuma das preces sem amém. o dia era meu, mais que de qualquer outra pessoa.
21 de outubro de 1976
acho que algo me tocou hoje, de maneira diferente. mamãe veio me visitar, trouxe pudim de pão com leite da roça. perguntou como estava. "Está ótimo!", respondi. não, não é o pudim. merda de pudim! agora estou horrível. perdi o toque. devorei o pudim com culpa.
15 de maio de 1981
só as mães são felizes. o bate bate lá fora nem parece perceber que nesse quarto sou mais... faço mais. um. dois. três. mamãe me lembra esses números. cortina. cera líquida. TV Phillips. esconde-esconde que nem percebo. esconde-esconde. ora, esconde-esconde! hoje tudo parece muito mais oculto. cortina. cera líquida. TV Phillips. sempre esconde-esconde. nos últimos tempos, tudo me conspira um segredo.
29 de novembro de 1987
o dinheiro não dá para nada. 10 mil cruzados na mão e o Sr. Sarney a nos ajudar com mais um plano de milagre. tudo comprometido. preciso de carne, leite, pão, salão e Lojas Americanas. uma família feliz, como todas as outras. apesar do Sr. Sarney. se fosse o Tancredo...
26 de setembro de 1994
encontrei estes escritos! não sabia que os tinha feito! trapaça do tempo! era outra antes de lê-los! sou outra quando os leio! devo ser outra quando queimá-los! vai embora passado!!!!! desgraça de escrita!!!!!!
15 de fevereiro de 2006
encontrei alguns papéis queimados. rabiscos em uma caderneta pequena e envermelhada do ano de 1971. telefone. feriados. fuso horário e a assinatura da minha mãe. agora começo a me lembrar do que ela sempre quis esquecer. decerto papai não teria um diário. mas se tivesse, e o encontrasse, leria precipitadamente, sem tomar nota de que, neste momento, quem o escreve serei sempre eu.
четвртак, фебруар 9
понедељак, фебруар 6
Falta espaço. Falta tempo.Falta destino.Falta.
Enquanto caminho pelas letras e linhas na praça da maior da ilusão da (humanidade: outra ilusão) penso: se eu realmente for transcendental a minha vida? Escapulia assim, tanto da dependÊncia de ser-para-o-outro quanto do problema de ser-para-mim;
Será que existe um limite pra tudo?
Acho q esbarrei em mim mesmo e agora estou voltando pra trás em mim. Multiplicação ainda, mas não produtiva. Cancerosa, destruidora. Fatal?
Desejo, pois, a abstinência séria e graciosa dos problemas banais, ônticos;
Eu me canso disso tudo, dessa coleção de coisas insignificantes.
Na vida qeu se vive não há poesia.A realidade é o massacre da poesia.(Sim, eu compreendo plenamente o suicídio. Apenas não me acho boa o suficiente para abrir mão do paradoxo.)
A vida viva se poetiza ao não (mais)nos pertencer.Nada que se vive é belo. A beleza nasce da morte, seja no tempo,seja no espaço. É na perda o lugar do sentido.
Gosto de andar pelas ruas, todas as ruas, subúrbios e zonas suls. Me agrada a possibilidade de só olhar os pequenos dramas, e não me importar com eles, não ter e nem poder fazer nada por eles, destilar deles a mais pura poesia do vivido.
недеља, фебруар 5
Voltou-me. Nada do que via lhe pertencia. Estranha no único lugar que seria seu. Sorriu-se amargamente de tanta liberdade.Entendeu que não precisva ir a lugar algum,e ao mesmo tempo que poderia tê-los todos.O que a desobrigava a ficar não a obrigava a ir. E era este estado intermediário, este hiato, que ela havia buscado (inconsciemente?). Eu estava em sua cama. Ela me via? Acendi um cigarro e esperei longos minutos.Bebia um bom vinho e a taça estava cheia o suficiente.
Voltei a fitar aquela mulher, desnuda e um tanto descabelada. Compreendi que a solidão é um estado de excesso de ser por dentro, de modo tal que nada sobra para fora.
Há anos conhecia-a, "enfermiça da vida", aquela alegria fútil de quem nunca perdeu nada, uma irritante e banal felicidade inabalável, que a conferia uma fealdade impossível de descrever. Tive preguiça quando ela se ofereceu esta noite, confesso.
Era ela a mulher que agora borbulhava, sem se dar conta, de si , de mim, do mundo. Atingia uma espécie de nirvana naquele silêncio angustioso, doído. Uma beleza incomunicável irradiava-se por toda sala.Alguma coisa estava falecendo naquele momento, com aquele silêncio.Ela agora fumava, como se conformada com a extinção. As lágrimas que vertia era tão invisivéis como eram inauditas suas palavras. Era como se quisesse guardar algo pra si, algo que fosse somente seu.
Encheu-me o copo, e eu dei um gole generoso. É preciso estar bêbado para assistir a certos nascimentos e mortes. Por um minuto ela concentrou-se em meus olhos.Lancei-lhe um olhar de discórdia, para deixar claro que ela estava certa, terminei o vinho que restava num único gole, levantei-me e sai sem fechar a porta.
петак, фебруар 3
-acho que elas apenas te perseguem. Assim cheguei até aqui.
Realmente não há nenhum motivo para irromper o fim da tarde. O vapor quente das ruas chamusca. Eu tive um dia tão longo. Tão vazio. Tão confortante. Tão tedioso.
Ele definitivamente só poderia acabar assim, nessa conversa que é sempre a mesma, um prazeroso andar em círculo, que leva, evidentemente, ao lugar nenhum.
Na mesa ao lado um lourinho lindo fazia de tudo pra chamar atenção do cara moreno, feio e esmirrado, sentado a sua frente:"Daniel, ainda não somos casados pra eu ser obrigado a te ver tomando café e ler jornal. Eu vim conversar com você".O evidente silêncio entre o casal infelizmente não encontrava respaldo no local. Um grupo saltitante de psicólogas desfinhavam ninharias sobre filosofia e homens inteligentes.Gostei de ver como uma citação de Platão e o conselho do alternativa saúde se completavam perfeitamente para ensinar como lidar com o homem ideal.
-A humanidade é uma idéia fracassada. O Homem é um projeto falido.Pra que insitir nisso? Resta a nós escolher entre um fanatismo esclarecido ou um esclarecimento despótico...
-nos resta cancelar o café e a proposta de sobriedade. O mundo é vasto, mas indigerível fora do domínio etílico.