уторак, јун 12

"A coquetterie é uma atitude religiosa,
a elaboração de ritos
em que se exalta o fútil.
Mas a frivolidade deixa revelar a essência:
a paixão pelo pormenor exprime o
desregramento do amor e do ódio
- e é o excesso que acaba por nos fazer sorrir."

Não, eu não me importo em estar sozinho, hoje
por
aqui
agora.

Eu? Sozinho? Não me acuso em tal per-missão..

Disso tudo, disso disso, de estar sozinho, pode estar inter-dito uma chamada
uma recompensa
um reembarque (porque estamos terminantemente transitando)
para o meu próprio lugar,
que não é aqui,
nem acolá.

Aonde será?
O meu? O eu?
E o embarque? Algum lugar?

Empazinado de um salgado mal comido (bem dormido), olhei hoje mais alguns apartamentos. Nada, nada nada. Nada que prestasse. Há que se ter algum fio, esperança, sentido; preciso, então, me fio, no que me confia, e por aí-lá vou eu, sair, novamente, à procura, amanhã.

Sinto saudade de você, e talvez tenha saudade de mim mesmo, de você, e de mim, do trânsito (não do tráfego), do embarque e do desembarque. Aí-aqui-e-já-lá-já-já gosto de você, em trânsito, daqui e daí. Simples

Assim.

понедељак, јун 11

"esse jeito anfíbio de ser me favorece. sei a gíria e um tanto da poesia que essa geração tem em todos os seus fliperamas, seus beatles, seus ácidos. essa literatura me interessa, essa que sai de dentro das páginas e flana nas esquinas, joão do rio, literariamente. nada muito claro. foi lendo Oswald, presente do Charles, que alguma coisa acontece no meu coração. era aquilo, aquele corte seco, garrincha, um humor rápido, gaiato. ou teria sido goddard? o choque. ou seria joão gilberto, nada além do estritamente necessário. desafinado. ou Caetano, me quebrando por dentro e por fora. tão lindo. sei lá. as influências são difíceis de deterctar. onde é a literatura na cabeça da gente??? na janela dum ônibus? num lance?"
Chacal

среда, јун 6

Eu fico.
como se eu pudesse instaurar um ponto, e deixar que o mundo se vire e re-vire. polêmica, dissenso, debate. Eu tenho-sinto-desperto tudo que preciso. Crio os furacões a minha volta. vou pra rua e bebo a tempestade. No horizonte, algumas pessoas se foram. Outras chegaram. E algumas estão aqui mesmo não estando. São tantas.
Essa coisa de saudade faz a gente ver de outra perspectiva quem está perto. Só quero a insolência. E nunca esse ressentimento calado, essa fragilidade travestida de afastamento.
Escrever também põe a gente em outra perspectiva. como uma viagem interna. um porre. um desorganizar inconcluso. vôo de uma abstração profundamente concreta. E no fim de tudo apenas aquela sensação de que entre uma palavra e outra, um trago e outro, um desentendimento e outro, eu fico.
Um dia, quando eu for bem velhinha, vou entender essa gente que não gosta de confusão...


понедељак, мај 28

Amigos de bar
Papos desconexos
Eu procuro um par
De novo o velho sexo
Fedendo a vexames
Procuro alguém para amar
Na rua deserta
Como as Casas Sendas
Não me repreendas
São sempre os mesmos problemas
Não temas
O meu tema sem vida, minha amiga
Só porque eu perdi a vida
O presente mais lindo, um verso, um amor
Paciência comigo
São sonhos tão novos
E amigos antigos
Pra temperar vodka
Gargalhadas gostosas
Acrescenta pequenos momentos de silêncio
Conferir a sério
E esperar o troco
É louco viver!
Boa noite, amiga
Prazer em te ver!

Cazuza.

петак, мај 25

“Escrever é entrar na afirmação da solidão onde o fascínio ameaça. É correr o risco da ausência de tempo, onde reina o eterno recomeço. É passar do Eu ao Ele, de modo que o que me acontece não acontece a ninguém, é anônimo pelo fato de que isso me diz respeito, repete-se numa disseminação infinita. Escrever é dispor a linguagem sob o fascínio e, por ela, nela, permanecer em contato com o meio absoluto, onde a coisa se torna imagem, de alusão a uma figura se converte em alusão ao que é sem figura e, de forma desenhada sobre a ausência torna-se a presença informe dessa ausência, a abertura opaca e vazia sobre o que é quando não há mais ninguém, quando ainda não há ninguém"
M.Blanchot.

понедељак, мај 21

ando me engasgando com as palavras.
tenho tantas e tão pouco a dizer. então?




às vezes.
só às vezes.


penso em não esperar por aquilo que surge do inconcebível vazio.

петак, април 27

Consolo na praia


Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

CDA

недеља, април 8

quase um suspiro:
eu não nasci para isso. não para essa relação
tributável.
há quem fuja da vida burocrática, mas não escape dos protocolos intestinos.
eu me retiro.

vou por venturas. ainda não sei, ainda um quase lugar.
talvez seja bonito. talvez eu aprenda a ver em outro infinito aquilo que curva em mim, e me afoga em tantas interrogações.
não caibo no espaço que fiz; Veredas impunemente.

субота, март 31

neste horizonte que se desdobra, sem conforto, sem promessa, sem seguro. não há garantias.
este falso cansaço, que também é um falso ânimo.
uma vontade de não ser nem isto nem aquilo.
uma vontade de não-ser nessas horas representadas, em fila, em procissão. é preciso escapar. se me encaro, o que vejo? alguém que efetivamente não se importa. que quer o diverso só por ser diverso, que acha tão divertida uma coisa quanto outra. E que só não pode suportar aquilo que, por capricho ou preguiça, não varia. De resto, as musas, as divas, as putas?! príncipes, mabembe, bandido?! dessas máscaras que se faz senão um carnaval? não me peçam seriedade com essas personalidades todas, não me acusem de magoar essas ficções, não me fale de exagero.eu te falo de preguiça.
são dias e dias tecendo.
dias de acordar e sentar em frente ao computador e levantar horas depois sem uma única palavra. tudo para amanhã; são dias de conversas certas com pessoas erradas, ou seria bem o contrário?ou coisa nenhuma?dias de vagabundagem virtual, e de cervejas reais, e impressionantes. leva tudo para uma nova claridade, uma outra clareira, que nunca foi outra.
apetece-me o INDEFINIDO. estou em casa.

понедељак, март 26

Ultimatum
Álvaro de Campos

Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.

петак, март 16

CONTRA TODOS E CONTRA NINGUÉMHoje vamos tratar de um tema polêmico: a polêmica propriamente dita. A busca pela unanimidade torna-se incansável à medida que os argumentos vão ficando menos plausíveis, a falta de um senso comum é a linha de partida para a discussão e por fim ganha quem levar no grito. Convencer-se do contrário é dar a mão à palmatória, é sair perdedor de uma guerra sem vencedores. Ou achar que na vida tem-se que entrar sempre para ganhar. O desejo da unanimidade é o único ponto pacífico e por mais frustrante que seja a descoberta do impossível, menos perceptiva é a intenção do real sentido do termo polêmico. Afinal, o que significa polêmica? É ir contra a opinião pública? É ter uma visão particular, e não por isso distanciada, de uma realidade construída apenas no social? Polemizar é contrariar o desejo comum de tornar a rotina uma sucessão de pastiches de identidade. Ser polêmico não é ser simples e puramente do contra; é, antes de tudo, saber que tudo isso vai dar em nada. visão de Hermés Galvão,

недеља, март 11

уторак, март 6

eu tenho corações fora. Dentro só desconheço.

понедељак, март 5

um dia conheci alguém que não tinha medo.
era forte e sincero, mas não tinha nada. era sagaz e voluntarioso, e vivido.
era simples saber como ia perdê-lo.

e nunca teve a menor importância. nunca foi muito homem de receber visita. Em geral ele era encontrável na cidade.um filósofo formidável, me recebia e conversava comigo.

um dia, sem mais, ele parou de ver. logo então percebi que ninguém jamais me enxergaria.

четвртак, март 1

esse estado oscilante porque tudo está parado.



re corte


ao mesmo tempo a causa e o meio de uma lenta hemorragia.

уторак, фебруар 20


Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza

De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser

E ao mesmo tempo essa vontade de servir,

essa Contemporaneidade

com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Vinicius de morais

петак, фебруар 16

no interior existia um jardim de cactus, cercado por montanhas azuis. Não estava ali a transcendência, tinha dado um passeio. a menina regava as impossibilidades, que escorriam brilhantes e sem fim. Tocava lentamente os espantos, o que gerava espasmos irrepreensíveis na fluidez da noite.
Abria janelas toda vez que se cansava, e ali descobria que tudo está em seu devido lugar. Uma tristeza doce brotava, ela a servia com gelo, limão e coca-cola. Do frio escaldante, bolhas de desarranjos de muitos tipos estouravam, deixando em seu rosto cicatrizes charmosas e volúveis. Trocava a página e as vozes de um idioma quase incomprensível, quase natural, a despertavam para outro sono.

четвртак, јануар 25


Praticamente, cada vez em que tentei escrever um livro, o cansaço vinha antes do final. Tornava-me lentamente estranho ao projeto que tinha formado. Esqueço o que me inflamava na véspera, mudando de hora em hora, com uma lentidao sonolenta. Escapo-me de mim mesmo e o meu livro me escapa; ele torna-se quase inteiro como um nome esquecido,: tenho preguiça de procurá-lo, mas o obscuro sentimento do esquecimento me angustia.

E se este livro se parecesse comigo?


nenhuma incerteza dessa vez, mas uma renúncia a certeza. É porque o discurso é também o contra-senso da raiva, mas ñ o BASTANTE.


G. Bataille

среда, јануар 24

Ele não é mais mesmo. Pergunte a ele, faça isso, pergunte a ele se alguma vez ele já foi mais, ou ainda, o mesmo, aquele de sempre.

Pergunte!

Não, não pergunte, você não quer saber, realmente. Isso tudo é só uma fantasia. Isso tudo é só a verdade. E os fantasmas são nossos guias.

Alguém tem Medo?

понедељак, јануар 22

Meu pulmão tossindo escarros parece querer me avisar de algo que deve sair daqui de dentro, urgente não por alguma necessária limpeza e purificação do corpo e quase isso emergente, de querer que saia algo logo porque deve sair, mas não sem dor sujeira catarro que leva um pouco desse meu ar expectorante.

Não sou o único que está expelindo sujeira agora é o mundo que está recebendo aquilo que me foi dado sem contrato de troca, acerto de contas, não, nada disso, porra nenhuma que o acerto de contas de nada nos vale senão se enreda pela negação de um erro para a troca, mas não, quando não há um erro, porque não há um acerto, o que se tem para expelir é exatamente isto que renitente faço agora, expectorar o ar da Cidade, jogando meu catarro na cara do Outro no espelho do banheiro no chão da sala de visitas na despensa de uma lembrança, sigo assim o que posso fazer a respeito disso que tosse contra mim, me sufoca e me alivia na espera expectorante de que o último será para sempre o último e que depois dele o que vem será a saúde bonança riqueza, não doença, nada de febre dores odores mórbidos de uma vida débil e ainda assim cuspida e escarrada. Não, quem me dirá ser possível parar com estes pigarros, algum deus algum humano?, ainda assim não, não tem ninguém, sou isso que vomita em vocês desejando o suco grosso e viscoso que salta da boca de vocês porque salta de mim e salta daqui para nossa comunhão, a substância essencial da nossa Cidade que tosse em mim e eu escarro nela, vocês não?, escarro sim como uma oração de graças a deus por existir alguma secreção que nos fixe precariamente num pegajoso mimo pulmonar, nada de cigarros nada de margaridas anjos e seus jardins queimados, o que tenho agora de mim unicamente meu e nada mais além disso uma tosse que acontece aqui e volta e revolta envolta no escarro que salta assim da garganta vindo do meu pulmão sufocado no seu próprio ar ar ar ah...!, ah não!, o que é?, eu preciso expelir isso colocar para fora o que é da substância porque o que está dentro não precisa ser guardado para que mate quem o aloja, nenhuma essência se guarda não, ela se mostra, joga-se violenta e involuntária porque assim ela é, caprichosa e sufocante essência, respiro mais um pouco enquanto atravesso a rua, de um lado cemitério do outro cemitério, um Corcovado melancólico separa a Cidade sentimental e suspiro, é preciso!, já!, eu ainda acredito nisso, no suspiro que precede o espirro, está aí nossa essência mas, grande bosta!, o Ser suspirante diz respira e pede por ar ar ar, avisa que algo vai acontecer pelo seu pulmão fonte de vida e catarro, algo pode fugir para fora dos planos, ensaia dizer o que está aí, o essencial no reflexo da Cidade, o ar que gira o peão e brincando com esse peão coloco para fora aquilo que vem de dentro porque é por fora que o de dentro me vem e fica aqui sufocando preso sempre a chiar a minha respiração para fora, não não não, preciso escarrar na valsa do mundo para ver aonde o meu fôlego suspirante pode ir se estender, assim quase até não aguentar mais, até explodir em fúria e deixar cair a essência da Cidade.

Vejo então no espelho do banheiro o reflexo de uma polpa verde que surgiu de assalto do meu pulmão em direção à boca e libertou-se no ar girando em círculos de um progressivo espiral indo grudar no vidro que nos reflete, meu ar e eu, sim o que vejo agora no espelho da Cidade é de um lado uma esmeralda verde impressionante corro para pegá-la linda e reluzente, e do outro lado um resto de abacate colado porcamente na minha frente naquele vidro ah que verde mais nojento, quem me dera não ver isso, esse abacate desgraçado, quem me dera seguir no mundo espirrando esmeraldas para os pobres de espírito, enriquecê-los com meu cuspe e meu ar já debilitado, mas não, na Cidade o abacate no quintal do pobre parece querer dizer tanto quanto a esmeralda no pescoço do rico e eu expectorante já me perdendo brincando na roda viva que gira em volta do meu escarro sem saber aonde ele vai parar assim porque eu vou puxando o ar até não aguentar socando a história disso tudo para dentro me sentindo sufocado pela minha própria respiração e já uma secreção essencial escondida na minha garganta precisa saltar para me aliviar...

Cuspi.

уторак, јануар 16

se já houvesse passado. se apenas eu ñ soubesse, e isso ñ me inquietasse. se apenas. se ela ñ estivesse ali no mesmo lugar onde sempre esteve, a espreita de mim. vc ñ me conhece. ela me traga, e me habita.


a angústia cala o grito, e meus olhos se refrescam.


deixo tudo pra quando o carnaval acabar.

четвртак, јануар 4

"Povo lindo , povo inteligente,

Em 2007 vai ser pior...
Pior para quem estiver no nosso caminho.

Então que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não pára.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem recite palavrões.
Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa: pior que a arrogância é a falsa humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo.
Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza.
Os erros são teus, assuma-os. Os acertos também são teus, divida-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidão.
Qual a sua é verdade? Qual a sua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare-se.
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos --nesta hora serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.

O ano novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele.
Acredite em você!

Feliz todo dia!

Coração em chamas,

Sérgio Vaz
Colecionador de Pedras"

четвртак, децембар 14

é porque a gente percorre as passagens dos textos que abrimos e fechamos todos os dias. todo dia uma nova história é aberta, e tudo não contempla o todo nunca. Tudo me parece muito solipsista no momento, mas em algum lugar eu sei que todos os desarranjos não são apenas fruto de minha incompreensão. é furto daquilo que não vivo, e aspiro, vivo pelo avesso, pela outra ponta, toco pelo lado de lá. não adianta fingir que não aro todos os dias meu terreno, e seria uma loucura pensar que não é aqui que devo estar. é isto, não aquilo. desse jeito e não do outro, e outro, do outro vivo como outro. só me interesso pelo que existe, ruína desafeto arranhão desgosto tombo cansaço, gosto de tudo que existe e do que não existe por não existir, não por ser algo que foi ali e já volta. não quero aquilo que morreu, mas aquilo que não foi senão morte: desejo. a vida é sim esta corda bamba, não buscar o dia em que esta bagunça estará arrumada. não quero me dissolver e saber que um dia virá a redenção. essa indiferença é uma conquista do intelecto. não quero navegar num mar. nem mesmo um rasante num fim de tarde. não quero esta outra vida. quero nesta vida esta vida. sem laços, sem trégua, sem piedade. me cansei dos sonhadores, e dos destruidores de sonhos também. quero sorver de um pesadelo o pesadelo, e o que nele falta, não necessariamente como um sonho, mas aquilo ainda-inominável que pode vir me visitar esta noite.

среда, новембар 22

Realmente me pergunto porque insistir em viver este mito verossímel. A reversão violenta do que acabo de dizer é sempre interessada e interessante. É porque as forças assim inibidas continuam a manter uma certa desordem, uma incoerência potencial, e uma heterogeneidade clandestina.
não me faça chorar.
A encenação se desdobra segundo um sentimento de vertigem: mise en abyme.
não é sequer difícil escorrer de uma borda a outra.
mas ninguém disse ser possível se alojar nessa clivagem.
combino artifícios e temeridades
para desarmar os esforços de persuação de todo aquele que quer ter a ousadia de crer, ou o desejo de fazer crer em figuras, tropos, deuses, ou qualquer outra sedução do discurso.

среда, новембар 15

Se eu desse um corpo para tudo isso, talvez ela não estivesse vazia agora.

Penso num silogismo prático que possa estruturar minhas questões. (Essa comicidade não nasce de um artifício, apenas da paciência de uma impaciÊncia. )
o puro a priore nunca existiu, ou nunca algo existiu que não fosse puro a priore?
O objeto pulsante que persigo escapa todas estas letras. só porque palavra puxa palavra não quer dizer que as coisas se resolvam assim.
Je suis en toi le secret changement
Se me interrogam, respondo que os mortos vão bem, depois da fuga pânica das bestas.
Traço por traço, já que não dispunha de nenhum outro documento que não a memória,

EU O FORMEI, TOQUEI, SUSPENDI, O FIZ E O FIZ CAIR.

desamparo?

é indigno de grandes personas mostrar a perturbação que sentem.Ela deve estar lá, instalada delicadamente, pronta e ao mesmo tempo invisível, como uma queimadura suave

não destruído, mas largado como um detrito.
RASTRO. ( continuo a achar que o amor é uma dança).
onde está o corpo?
("Resta o Fôlego")

Uma flor por um cigarro? Já me acostumei com essas trocas banais. Um mal esse costume, mas sabe como é, não há menor generosidade nessas pétalas do que nas cinzas que acabaram de cair. Meu mal me quer bem me quer, meu bem me quer meu mal me quer. Um mal por um bem e por aí vai, até inverter. O duelo íntimo do amor em um feito bem mais íntimo do que toda essa inconfissão;

ou o que trago em uma flor de amor é tão mais imprudente e sincero com nossos corpos
quanto forte e maligno com a nossa união?

Juntos juntos, tão mais seguro esse espaço de corpos que não se dão conta...

Mas não é da conta de ninguém, mesmo! Mal me quer bem mal me quer. Mais cigarro para eu continuar isso, quero despedaçar essa droga de Margarida por essa sua cor pelo seu cheiro pela sua fé inócua e infértil.

Mais um cigarro porque é preciso exumar tudo em volta, desde o meu acender de cigarro, notem bem!, ao esquecer do tempo estúpido que brinquei de chorar. Catequizar a promessa de um mal me quer volúvel e solitário. Quero pactuar com os anjos trair o diabo gozar em Cristo e foder muito bem fodido até arregaçar e comprometer ao extremo a carne que demanda e subnutre essa fé apenas para ver se arranco dela algum laço bonito que amarre a minha vida. Te farei um presente.

Que me vale a Merda du Monde? Não não não. Três vezes foi negado. Três vezes será renegado. Repetido? Não não não. Não. Pode contar!

(Cuspo para o alto. Bem alto, para fazer meu escarro voar para onde é preciso, mesmo sem a esperança única de conseguir. Esperança, alguém me lembrou dela? Isso é uma luxúria para mim! Uma grande abertura para o meu riso o meu sexo o meu pouco caso salivar. Não me comprometo com o não. Já insultei a minha Fé e difamei todos os meus Pensamentos com essa água maltratada que saiu da minha boca agora agorinha direta assim num jato. Sobe fezinha, sobe!)

A esperança de quem aguarda um final é inquieta pecaminosa vulgar. Sim, ela não é nada, não. Esperança: um sentimento em desidratação, e nossos dias estão tão quentes, Babe, e nada nos determina tanto quanto o absurdo de toda essa nossa prosa, que, Irmão, não te traz e não me leva a lugar algum.

(Aguardo abaixo do céu o meu cuspe. Ele cai sobre os meus olhos e escorrega molhado e bento, em minha face quase renegada, feito lágrima.)

Por isso, um aviso por um milagre, Camarada: não permita que te sequem a boca! Já vi isso antes, e se gosta de parábolas, no reino dos céus adormece um anjo muito feio e triste que, de tanto fumar e despedaçar Margaridas, teve o seu jardim liquidado. Dizem que foi acidente, um incêndio.

Escute! Os meus conselhos são de...

("Você quer mais um copo?", "Claro!, hoje quero beber a angústia do mundo. Essa puta vadia já foi longe demais. Entorne cerveja nesse meu copo, por favor!"; Copos servidos e corpos a postos, escuto ao meu lado o brado feliz de anjos póstumos "TIM TIM!")

уторак, новембар 14

Resta o fôlego.

Eu tinha para mim que essa convicção era a passagem para uma segurança, mas saquei, pelo contrário, que ela está no risco do perigo.

Se ao menos eu tivesse o desespero e a certeza de que tudo está errado, que nada leva a nada, e o mundo não passa de uma tautologia cínica.

Ainda, se não me adoecessem o messias do desastre, à proximidade do fim, enérgico e esperançoso, como um dândi apocalíptico, eu blasfemaria. Se ao menos a paixão pelo erro, pelo fracasso, me asfixiasse, me matasse como algum gás letal, força ou convulsão na garganta... o que eu escreveria aqui?


Pos-Scriptum: Mamãe me falava que sentir ao menos é reclamar por mais. Tentava, materna e mandona, calar a minha boca, roubava-me o choro e o seu fôlego - esôfago. Interminável duelo, de mamãe: a sua natureza contra o meu grito. Ou seria só um suspiro - doce e branco, como os da padaria?

уторак, октобар 31

Nesta mesa posta e vazia, todos nos silenciamos para
ouvir um certo
burburinho, um rumor que secreta um corpo: é o som
causado pelo
atrito da ponta do lápis que risca a folha de papel.

(Um traço irrompe.)

Ce qu'on sait n'est pas à soi


Consteladas as vozes, diversas, somos
lançados para o vazio em que se trava a batalha pela
visão da escrita,
no desejo de que uma outra escrita possa surgir: dos
afetos, dos
fulgores, da paisagem.


(Para o corpo que se insinua junto ao meu, espalho um
rastro de
cintilâncias: meu corpo amolece, debruça-se sobre o
outro, vai e volta,
desprende-se de mim e abre-se ao fora de si mesmo:
estofo / caliça /
espumas.)

Mas na hora de voltar à tona já não havia os encantos submarinos e reaparecia a ânsia do afogamento. Você sabe? Você sabe, por acaso? A essa hora onde andará meu amor? A essa hora, onde andarão os meus amores? Meus dois, três amores? Onde andarão a essa hora? Onde está você? Adiós muchachos, compañeros etc. Fome de amor. Por que eles me deixaram sozinho numa hora tão difícil de se entender?

Escrevo nestes cadernos para que, de fato, a
experiência do
tempo possa ser absorvida. Pensei que, um dia, ler
estes
textos, provenientes da minha tensão de esvair-me e
cumular-
me em metamorfoses poderia proporcionar-me indícios do
eterno retorno do mútuo.

leio estes cadernos para sorver o espernear : a imagem
de uma extinção. De um exílio.Eles irão para longe. e
não, não irão voltar;

But that must not lead to a kind of neutralization of differences

To keep the outside out.

é assim: A gente avacalha e depois se esculhamba.
Oh sombra de remedio inconstante,
ser en mí lo mejor lo que no es nada!

O meu caminho, por outro lado:
É um
caminho ainda viável, uma espécie de caminho de ronda
que
ladeia, vigia e, por vezes, duplica o outro caminho,
aquele
onde errar é a tarefa sem fim.
venho a
esta casa com o sentido indagador que lhe
dou. Prescutar e receber
certas dobras quase
gastas e apagadas de acontecimentos históricos. O
livro não
é, para mim, o objeto rápido de uma leitura; dissimula
um
mútuo: uma época e alguém.

é de esperar que alguém se obstine em fazer coisas assim. Mas pra que também essa originalidade toda? Nada interessa?

Principio a recorrer às palavras que anunciam a
realidade.
Por que brincas? Por que não brincas? Porque
brincas
sozinha?
Por necessidade de te conhecer. De conhecer-te
respondo.
Entraste no reino onde sou cão. Pesa a
palavra.
Eu peso.
Desenha a palavra.
Eu desenho.
Pensa a palavra.
Eu penso.
Então entraste no reino onde eu sou cão
concluiu ele.

(Maria Gabriela Llansol,Maurice Blanchot , Stéphane
Mallarmé,
Clarice Lispector, Caetano veloso e eu mesmo)

четвртак, октобар 26

É como se não se sentisse nada. Tédio e compostura. Esteve além e aquém. E agora, Ali. O infinitamente grande... o infinitamente pequeno... às vezes a diferença não é simples. Às vezes não existe diferença. É preciso que as coisas sejam esquartejadas e dissolvidas. Preciso que a proximidade seja superada por todas as distâncias, para que se veja despontar o díspar. Não se trata de uma paciência ou de uma fixação ordinária. Visto o deslocamento e o disfarce, vence-se com leveza o breve instante de paralisia e retoma-se a reconquista do infinito. Tornar-se o próprio impossível.
Por que as coisas se repetem para mostrar que nada permanece?

среда, октобар 18

São apenas tempos sarcárticos, catárticos. Gosto de escrever como gosto das minhas unhas, vermelhas, e dos alter-egos fantásticos que se derramam sem fim nas mesas dos bares. Sei que se pudesse afugentaria o desejo a qualquer preço. Se pudesse escreveria pra falar contigo. Mas gosto de contar os degraus em que tropeço. Sou danado e como erva daninha encho meus bolsos de cigarro e emoção. Fujo dos holofotes estrangulando uma outra vida que nunca pode. Andam me dizendo que sou muito má. Mas tenho pra mim que não. Herdei sim aquela certeza de que dou para o mal. Mas não vou viver das lágrimas do teu rosto. E ainda que passe por cima, será apenas uma dança.Quando eu for embora, um gesto incompreensível aprisionado em uma insana escultura. Eu sei, você às vezes fica preso em sonhos tristes. Por isso insisti para que o nosso encontro fosse em mim. Onde chove sempre. É o indigente que apazigua a ressaca e põe a menina na cama. Havia outro que a amava. Uma parede é uma letra e mesmo assim não cabe.
É que temos muito medo de ser parvos.

уторак, октобар 10

-Que pode ser aquilo que se quer?
-Entre._ o mundo é mesmo essa quimera semi-horrenda.
Nos deixemos cair, ora, num doce abandono no meio desta desordem. Por trás, mais longe.
-O mundo está, para mim, deserto. Quando chegará o momento de estancar essa hemorragia? Minha dor não tem cura.
- há uma espécie de beleza nisso... uma grande farsa... um carnaval nunca vivido... uma catástrofe sem lágrimas... uma súbita aflição basicamente triunfante... deleite, desvio,delírio, desespero, desvario, desaparição.
- eu queria dizer que permaneço bêbada para sorver a sobriedade do mundo. Mas basta dessa vida pela metade. Basta de Eu e Outros.Estes subterfúgios que são as dicotomias eu blasfemo. Estou bêbada e sobria, sou eu e todos os demais. Atravesso a cisão que nunca foi senão o reflexo de uma tênue poça d'água.
- você corre..... Não quer....acho que honestamente evita... Mas leio-te e vejo o mesmo intelectual de sempre. A consciência de todos...Falando em nome do universal. Pescando do abstrato céu a verdade e oferecendo, "generoso" sua determinação possível aos bossais.
- eu posso falar de um único homem, ou de todos os homens. Por que escolher a forma menos dispendiosa, menos aleatória, menos sucetível à escapatórias, à deslizes, aos empurrões?
- não há nada a se compartilhar entre todos os homens.
-Há: a vaidade, o cinismo e a luxúria. Há também o sonho, a bela, inútil mas soberana capacidade de sonhar.

недеља, октобар 8

Busco, sabendo que a busca é a própria procura
Porque não há de se nomear um fim no que não se finda em seu fim
Que tornar-se-á uma outra busca do procurar
Caminho sem propósito que fuja ao caminhar
Que é o próprio fim em movimento
Estar nunca estando

субота, септембар 30

Desligar.
Ele pôs uma roupa bem bacana, e foi. Era como eu quando comecei a escrever isto. Não sabíamos, nem eu, nem ele, muito bem o que queríamos, onde iríamos, o que nos esperava. Apenas era impossível ficar ali, ele em seu mundo, eu na minha primeira palavra.
Não sei muito bem como nos encontramos. Ambos sem rumo, mas conscientes de que não há nada de especial nisso. Alías, nesses dias, este sentimento é tão vulgar que seres de exceção querem fugir dele. Mas ele ia. Até qualquer coisa que não fosse ele, que não estivesse impregnado de seu cheiro, de suas vontades. Repito que não sei como pudemos nos encontrar. pois meu caminho é reto e simples. Ir até o fim da linha e voltar. E ir de novo. Nâo tinha nada a dizer. Apenas queria arar este espaço tão branco. Ele andava em círculos, em elipses improváveis, rotas desarmônicas, cambaleantes. POr tantas vezes parecia trombar, tropeçar, trapacear. Ele queria tanto escapar de si, e eu sempre tive que inventar. Ele, materialidade pura, tão ferido, tão castigado, tão real. Eu, de primeira, não pude entender. Meu caminho, sempre em linha reta, na verdade sempre fez em si todas as curvas, todas as digressões, todos os destinos. Eu sempre fui bela, éterea, impossível, ficcional. Sempre pude tudo, e aquele moço, tão pouco.
Não sei bem quando foi que nos encontramos. Acho que foi há muito tempo atrás, ou tanto tempo depois. Sua dor é a esperança da minha próxima letra. Seu passado, meu outro futuro; sua ruína, meu monumento. Seu sossego, meu espaço.
Escorre sangue do enlaço que nos une.


-coisa bonita isso... (vê ai a saideira? mais um maço de cigarro!)mas pra quê vocÊ falou isso tudo ?
-POr que as pessoas teimam em dizer que isso tudo não é real?
-pessoas existem?
- Pessoas não existem. Apenas a noite existe. Pessoas... em geral, elas são apenas perda-de-tempo. passa-tempo;
- vejam, o dia... o bar está fechando... não se pode pensar impunemente.

среда, септембар 27

Lago de Narciso

toda essa gente se engana, Eu sou quem eu sou

fingem

não vêem que eu nasci pra ser o super bacana.

EU
. Saio da fossa,
dançando
nagô.
Eu sou o samba!
sou o rei do terreiro .

sincero contradizendo-me a cada minuto, desagrado pela plena liberalidade de espírito. Amo como um deus. Te perdôo por te trair.

четвртак, септембар 21

O dia começa sem um nome. Não é dado nome para esse dia. Sem nome, dia, que começa, começa. Sem nome, sem dia, começa. Dia. Corro para um lado de lá que não tem lá. Corro para um lado, de lá, não tem lado. Corro, de lado, de lá, para quê corro? De lá-do nome. Olho para os seios daquela mulher. Olho, para os seios daquela mulher, olho. Olho. Corro para quê? Corro para lá, corro para o lado de lá, corro para os seios daquele lado de lá, corro para aquela mulher, olho, corro corro corro, para o lado do nome, sem dia para começar, corro. Começo sem dia a olhar para o lado de lá dos seios daquela mulher. Seios. Olhar. Olho. Começo do dia como um dado, olhar, nos seios, sem nome, mulher, olhar, olhar olhar.

среда, септембар 20

A cortina é púrpura, e uma esperança de brisa vaza por ela. Arde a vida lá fora, num dia infinitamente branco. Eu não quero ir, não quero. Como subsídio à compreensão, interrogou-se pela necessidade de atestados para a vida em dias de calamidade tácita. Um verdadeira mostra de tudo que sinto são os indígenas americanos: aquilo que não pode existir
senão deste modo. Enganam-se aqueles que pensam por isso surgir um discurso de caprichos e futilidades. Apenas indico.
Uma fina camada de poeira cobre todo assoalho. Uma espécie de epiderme, cuidadosamente tratada, a fim de proteger os mais frágeis das alterações prodigiosas do devir. è estranho pra você também, isso de perceber que não mais importa?
A cama desarrumada há dias. Roupas e livros formam um conjunto belo de tão desarmônico. O que pode por as coisas em seu lugar? Precisa-se de uma faxineira. Uma faxina que ultrapasse o ôntico. Uma faxina fenomenológica.
Tenho metros e metros de papel-bolha. Estourá-las têm sido a coisa mais útil dos ultimos dias.Pensando bem,
é uma coisa meio estúpida isso de não saber a diferença entre o estranho e o familiar. Na verdade é a estúpidez de uma época, da mesma natureza dessa bobagem que é sentir saudade
que nunca existiu, Quanto pode valer uma hora do meu dia? Como sou livre, defino eu mesmo minha mais-valia. Contabilizo, e espero. Sou um produto que peca na relação custo-benefício.
Espanca quem quer levar.

субота, септембар 16

Acordo tendo como companhia a ressaca e o cansaço.
O que exatamente se sucedeu ontem é assunto para sagazes historiadores das bizarrices culturais.
Eu, distante deste meio tão erudito, me perco em sistemas muito complexos de pensamento, tudo muito chique e inútil.
Nunca consigo saber se é porque já conheço os passos da estrada, ou se é porque quero que você venha comigo.

Acho que é o calor que co-funde tudo.

Também sou um ratinho de laboratório a espera do fetiche do cientista ausente.
E sou também a abóbora que ainda-não virou
carruagem.
não posso curar as escrófulas, mas tenho mãos taumatúrgicas;
vc se esconde.
Ela não vem.
e os outros, são rosto ou fronteira?
ou ainda, apenas um devires?


no fundo, se trata saber o limite entre o irreverente e o ridículo.
e esquecê-lo em seguida,
ou pulá-lo;


às vezes é só uma vontade de férias de si mesmo, para ficar com meus outros eu, em nenhum lugar.

субота, септембар 2

Não se preocupe, apenas a realidade está Um pouco zonza. O ar está esfumaçado demais. Muito barulho. The modern age.
Parece que deus o fez morrer durante cem anos. E ainda não passou mais do que uma parte do dia. Todas as horas pareciam um impostergável deserto chuvoso. And all these things...ele Incluia nessa sensação um amargo projetado nas ausências da noite passada. Refletiu que é lícito sucumbir às fraquezas da carne.
Alguma vez aceitou. Quando passa a exaltação, tudo se reduz ao mais simples. "por que você não veio?" se torna imediatamente uma pergunta intolerável. E ela sabia constatar o insuportável. E nas cartas que envia a seus amigos, o Irreal diz.
Manhã cinzenta e amena. Sofro, por mágoa ou por felicidade. Tive pesadelos. Saiba que estou lhe escondendo alguma coisa.
Ela cozinhava, mas os filhos não viriam comer. Figura deliberativa, continha um furor que desliza. Drene aquilo que é senão uma hemorragia.
Nesses racantos mortos, o som não circula.Pensar é pensar que as coisas não acabam nunca. Por isso ele não pensa. POr muito tempo, como o poeta, pensou ser ausência, falta.Agora já não pensa. Love Is Stronger Than Pride. Ri, ri.
Minutos depois, o ferro em brasa. Onde foi que você deixou sua cabeça? E isso tudo, abuso ou indispensabilidade?
Sabia-se tão viva quanto dependente. Anaisanais e um vestido a-histórico. A madrugada, espremida.
sim, algum dedo toca as teclas,
mas por propedêutica demitiu-se de ser.

уторак, август 29

петак, август 25

Preciso escrever algo de eminentemente;
uma necessidade que me rasga pelo lado de lá. Não preciso contar-lhe nada. Preciso mesmo e antes inventar uma maneira de você me ouvir.
Ei, presta atenção em mim.
Eu, objeto digno de pesquisa arqueológica e erudita. Mais do que uma antiguidade quantitativa,mais do que um documento de arquivo. Não extraia meu valor do fato de eu ser inserido, mas do fato de representar algo a mais, algo de diverso. Ei,
Vou te contar: da minha cabeça desprende-se elipses negras, e no meu torso, algo tenta aferrar-me enquanto revira, sacode, atira, estripa-me. Jogando.
Já fui de você?
uma vez, agora já não mais.
na verdade tudo procedeu-se de maneira demoníaca. mas você não deve ficar surpreso. Não fica. eu não fico. o mesmo mar e dois sóis. O mesmo sol e muitos horizontes. esse lugar inventado, onde se compartilha apenas o exagero do desencontro, a hipérbole da dessincronia. uma dimensão rarefeita. O foco desta experiência não é mais o instante pontual e inaferrável em fuga ao longo do tempo linear, mas o átimo da decisão autêntica, em que se experimenta não apenas a própria finitude, mas que se projeta além de si no cuidado.Isto não significa que o prazer tenha seu lugar na eternidade.

четвртак, август 17

Os primeiros anos da minha vida suscitaram em mim o gosto pela aventura. Papai me dizia que desde pequeno, eu ainda lembro do que ele dizia, desde pequeno eu brincava de esconde esconde de uma maneira diferente das outras crianças. Meu jogo se particularizava, na atenção que papai me dedicava da janela a brincar, em conflitos invisíveis, inexistentes mesmo para os demais da brincadeira. Em algum lugar, em algum momento da peça de esconder, meu jogo mudava de sentido e ia em direção a uma aventura efusiva e solitária. Nesse fervor quase sempre eu diluia a imagem das outras crianças em nuvens árvores cenário chão deuses armas personagens combatentes de uma guerra carnal.

Papai me dizia isso, como eu ainda lembro escutá-lo me dizer isso, como, como, aquele ar folgado, com o olho direito meio cerrado sobre mim a descobrir me revirar, eu diminuto diante dele e lá, por cima, ele a me visar como quem olha algo pela lente de um microscópio e tenta relatar o que vê em minúcias verbais detalhes que encaixam as palavras para dar o sentido daquela luminosidade vista, papai me encarava assim, como quem estuda um ser minúsculo, em segredo, quase sincero. Penso que papai hoje gostaria de me colocar numa grande mesa com lupas gazes e bisturi ao lado e examinar parte por parte dessa fantasia que me tornei. Será papai?

"Então você saberá de tudo um dia", papai falou.

Será papai?
Um dia. Depois, outro dia.
Bom ser assim.
A felicidade é página em branco.Eu sei. Aliás, eu sei de várias coisas.
Bom ser assim também. Odeio falsa modéstia. Sou sim, assim, desse jeito. Fazer o quê?
Convivo com isso. Quase um fardo. Oh céus.
Doa a quem doer. E se doí em mim? Posso suportar.
Vivo assim tem muito tempo.
Já não posso pedir desculpas por existir. - meu amigo, traz uma cerveja. A dor é grande.
-vai passar?
- se não passa, passa. e se passa, não passa. Quem vai saber?
- quem escreve.
-quem escreve?
Quando a casa está em chamas é inútil querer salvar os movéis.
-como foi de viagem?

уторак, август 15

Um dos problemas do agir é a irreversibilidade. Outro, é o desdobramento da ação. No encontro desses dois nós reside nossa falibilidade: o erro. Como lidar com o próprio erro? Com o dos outros?
Olhar no espelho é muito difícil nestes dias.

понедељак, август 7

O som, a tv, o pc. Na mesa um livro cheio de margens. O caderno amarelo. A gaia ciência. Reflexões sobre a destruição da experiência e a origem da história. Uma mensagem que nunca chega. Bossa nova. Um cigarro aceso. Clarice lispector. marcadores coloridos. Exercício de francês.a paráfrase: o ponto,linha e superfície. A negação da negação. Agora jazz. Na cabeça deveria estar Kant, Aristóteles, Heidegger, Hegel. Mas o pensamento escorrega.Sempre detestei domingos. Estou com raiva, constato; meus olhos deslizam. Se foque, Aline. Se foque. Mas a poesia me surge como oração, de-cór, intensa, plena, lúcida. Vêm de rompante, a dizer que mereço tomar uma cerveja, preciso beber alguma coisa rapidamente. Suas linhas ainda não corpóreas. Elas surgem e as leio no ainda não escrito:" Estou cansado, é claro,/Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. / De que estou cansado, não sei: / De nada me serviria sabê-lo,/ Pois o cansaço fica na mesma. / A ferida dói como dói / E não em função da causa que a produziu. / Sim, estou cansado, / E um pouco sorridente / De o cansaço ser só isto — / Uma vontade de sono no corpo, / Um desejo de não pensar na alma, /E por cima de tudo uma transparência lúcida /Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo. / Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, / E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, / Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa." Ainda toca jazz. Anda, tenho que estudar. ainda há um bar aberto? há de ter. há de ter.

петак, август 4

Ao longo de vários dias
reparou na flor matizada nascida na areia que escorreu entre seus dedos.
Não podia desviar-se.
-Oh se me lembro e quanto. E se não me lembrasse?
Aquela tristeza metafísica era fruto de uma falha de caráter. Era fácil olhar e estar certo. fácil olhar e prever. De resto, cabia apenas a resignação de quem olha as montanhas e sabe que nunca verá o mar.
- poucas vezes é tão doloroso dizer "eu já sabia".
- eu vivi uma história não documental. Sou devedor do meu passado.
- o mais difícil é saber que não tem fim. ou ainda por fim. é muito difícil ter misericórdia.
- não posso te contar porque qualquer redução seria insuportável. senão...
- se não?
- o que?
- a vida toda espero despreender um minuto.
São guerras mudas, filhas de uma indiferença armada. Qualquer coisa tão presente e íntima que ameaça triturar
uma flor, que resiste.
- E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,
unidos pela impossibilidade de desligamento,
acomodados, adversos,
roídos de infernal
curiosidade.

недеља, јул 30

уторак, јул 25

-Um vício só não basta.não para este mundo:
-Repare: não somos tão diferentes assim. Levantando edifícios como quem constroe castelos, na areia.
Veja aquele outro: enfastiado.
- a gente passeia pelo mundo como quem consulta um catálogo:a) carente profissional,b)moça apaixonada, c)divorciada bem sucedida,d) corno,e) mal-amada,f) cobais de deus,g) anjo caído,h) mulata sambista, i)trocador de ônibus,j) fadas,l) vermes,m) cagão,n) cara-de-pau,o) desmiolada,p) precoce,q) ingênuo,r) gatinha de rua, s)filosofo de calçada,t) revolucionário de buteco...
-e nós?
-um vício só não basta. Depois que eu descobri que era triste
As tardes ficaram mais azuis
Eu descobri. Eu sou triste
Depois que eu levei porrada
Que os urubus se mostraram
Depois da ingenuidade
Entrei numa fase estranha;
- Esta melâncolia não lhe parece patética? vc fala como um garotinho perdido dos pais...
- vc não pode adivinhar o que está rolando de novo. Não se trata de estar aqui ou lá.Percorro suas vias. um vício só não basta.

недеља, јул 23

Não se preocupe. Há sempre um retorno em cada curva que as palavras fazem.
Nunca tive notícia de nada incontornável.
Essa coisa de lugares sem saída é pra gente sem imaginação.
Mas imaginar não é uma levianidade, algo que vc faz por que não tem nada melhor pra fazer. é um inescapável exercício de agrura. Mas com a leveza de quem acordou cedo e foi a feira.
ou recebeu um buquê de flores.

четвртак, јул 13

_Há dias que saio de casa apenas às 21h. Encontro com elas. Tomo cervejas, fumo alguns cigarros.Não sei sobre o que falo, mas em geral sorrio bastante. Acho que me é agradável, sorrir ou estar com elas, não sei ao certo.
Retorno. Mas o que me intriga em tudo é que ando tão dispersa, que preciso ensaiar ser alguma coisa antes de ver pessoas. Eu preciso criar meu rastro antes de deixá-lo.
Não tenho nada em mim de espontâneo. O mínimo ato, entrar na cozinha pela manhã, e pegar um café: precisa ser muito bem pensado antes. preciso criar, cada passo, cada gesto, cada palavra a ser dita. Não pela necessidade de ser perfeito, mas pelo risco de não ser nada.
Sinto que abandonada a mim mesmo não levantarei da cama. Ou antes, apenas me dissiparei. Dissipará o resto de coisa concreta que me prende: este corpo. De resto, já desapareci. é só porque já desapareci que apareço, vez ou outra, como uma assombração para meus escolhidos, de uma forma assim, cruelmente irrisória.
- e isso te pertuba?
- Pois.
Fico pensando se pode ser natural não possuir nenhuma natureza.
- na verdade pertuba tanto quanto escolher. Porque na escrita a gente escava e procura e escolhe o segredo ou a dúvida mais bela, ou mais intrigante, e as sobras a gente vai ajeitando e pondo depois ou pra outra hora. na vida tb. Já que o infinit vai pra frente e pra trás, eu nem me preocupo.

четвртак, јул 6

-Você inventa motivos pra ficar triste. A maioria das suas dores são inventadas.
E porque não? é menos importante por ser assim? é menos digno?e o que seria se fosse de outro jeito? não seria apenas outro jeito? o inventado é tão relevante... as coisas mais importantes em minha vida são inventadas. As mais bonitas também. Na verdade, eu nunca consegui distinguir muito bem entre o que é ou não inventado. O não inventado tem o direito de doer e o inventado não?
Apenas sorrio. - eh, você deve ter razão.
porque eu não quero criar um argumento. Se eu quisesse, o faria, e bem. Venceria.Porque eu sei inventar, e quem sabe inventar, sabe ter razão quando bem entende. Mas eu não quero vencer. Um egoísmo. Isso que eu descobri, é só meu. Entrevejo que outros também sabem, mas não me contam.
é uma descoberta triste. feita mais de letras, do que de que carne. é mais incapacidade do que capacidade. é ver os outros, e ficar sem outros. é menos atributo do que defeito.
E,
ainda assim,
tão exigente. requer carinho cuidado atenção. Precisa ser,de tempos em tempos,
re-inventada.
e felizmente, não precisa parecer 'real' para ninguém.

уторак, јул 4

-Então, nada mais resta?
- nada mais.
Todas estas músicas, todos estes tropeços, tantas mágoas, tantos risos, tantos nadas...
- é. nada mais importa.
Penso que estou cansada dessa história de ser mais que fútil, tanto quanto estou cansada de ser só tão fútil.
- a gente toma uma saideira.
Ele me vê. quem me vê? tantos me vêem. Eu nunca vejo.Sinto asco em ser vista. Mas tudo continua.
- só mais uma. carreira.
contínua, continua. tenho raiva, tenho pressa, tenho pena.
- mas só agora vc notou que nós existimos?
- já não importa.
mais uma, mais uma.
Um copo, uma pessoa, um doce, um afeto, um cansaço, um...
-e quem vai pagar por isso?
- quem será capaz de calar-me a dor?
a vida, a vida, a vida.
eu finjo rir.
eu também finjo chorar.
- estamos num mundo onde não sente mais nada.Direita ou esquerda, humanas ou exatas. Estamos no mundo onde.
-mais uma,
- ... e o dia amanhece.

понедељак, јун 26

"Isso dá uma história?" Mesmo que a intenção da escrita seja clara de boa marca, das melhores, a razão de tudo aquilo era tão sombria traiçoeira perdida que a pergunta não era estranha para tamanha atração. Escrever o que fosse seria aventurar-me a riscar o cimento branco reto frio ao meu lado sob as minhas costas com a tinta negra do abecedário, meio por meio, meio por cima meio por baixo, sem voltar ao começo nem chegar ao fim. Seria voltar-me para ali, emparedado.

Por baixo aquilo foi um grande sono. Quando burlava a vigília minha cabeça sonâmbula andava por mundos nunca dantes vistos. Meu dedo desenhava sob a pele alvos-desejo aonde meus dentes fariam o trabalho bruto de aspirá-los. Meu corpo ainda soluçava ao toque tentado enquanto a mão, essa que pega fecha e segura, fraquejava ao insistir agarrar o ar quente brilhante que circulava do quarto da boca de mim. Primeiro bate bate. Tudo eu ganhava quando tudo eu perdia. Desatei a me rasgar naquela colcha de arames cortantes que corta fino e doloroso quando mais eu me batia e debato gritando ai ai ai mais corta cortantes cortes invisíveis pululantes de tão puros de pele quase sangram não confirmo se sangram sinto que escôo deságuo me liquido mas não sei se há um filete de sangue escorrendo e manchando esse lado da parede. Alguém sabe?

Por cima poderiam ser as estrelas. Cada marquinha letrinha palavra frase solta em verso aspas travessão na parede cortinavam-me constelações superiores cintilantes paralelas às minhas costas ao peito à palma da minha mão alheadas ao meu prazer e inspiradas em me vigiar prender enrolar-me e rasgar-me com essa colcha felpuda de arame farpado. A parede branca tinha já o seu reverso em um buraco negro. Quase-preso, sugado para aquele interior, arrisquei: "A perda seria o melhor preço".

"Qual é o preço para gastar isso?" perguntei, "Isso?? Isso é impagável..." a voz rouca respondeu-me, "Ok, quanto?" reafirmei meu desejo de desperdício, "Não tem preço, já lhe disse meu querido" retomou a resposta, "Filhodaputa não estou perguntando se você teria milhão para pagar isso eu lhe pergunto qual é o gasto disso?", "... ... ..."
Protestei furioso à ignorante pobreza do meu vendedor e tomei de assalto o precioso bem que só pedia o meu gasto maldito. Bandido, ainda temo a cadeia por esse meu ato. Subserviente, adotei a lógica do sistema. Sem saber, já caí na prisão.

Meio por meio aquilo era o outro ausente, fetiche. Assombro do que me escapa gasta e cobra do que me compra pede do que eu dou gasto rubro roubo pago cubro sopro vejo rio sozinho sinto que choro mas não choro daquilo que eu reclamo todavia eu não reclamo. Palavrinha por palavrinha meu redemoinho é aquela rachadura na parede cuja volta traz letrinhas cadentes para marcar por onde eu devo olhar. Ah, aquela parade, aquelas palavras, aquele astro no céu pêlos pele sem sangue sujos gozados amassados um sobre o outro, ah, aquelas palavras flutuando na parede... Mas o que era mesmo que estava escrito por lá? Não consigo recordar tudo direito para fazer essa história correta. Acho que li aquilo torto inclinado sobre o meu tronco. Meio por meio quase em silêncio antes de sonhar perguntei às palavras: "Isso dá uma história?". Não nunca deu. Sempre acaba e nunca para. (Quem me respondeu?)
Enquanto o Mundo gira, eu oscilo cambaleante.

субота, јун 24

todos pertos. E longe demais.
um me sussura pelas costas promessas de um mundo mágico. Onde vc quer chegar?
Nesse lugar não me reconheço. Seduze-me a estranheza;
Ali,
eu sou outra pessoa.
O outro sou eu.
Mais eu do que eu mesmo. Tão mais do eu mesmo que me faz desdobrar.
Ali, eu sou eu mesma, e mais tudo o que quiser.
Seduz-me porque potência.

Um não me conhece, mas pensa que sim.
outro me conhece plenamente, mas ainda não sabe.
-Eu não estou.
Não precisa escolher. Eu não quero cutucar o que eu sinto. Não se faz autópsia do que não nasceu. MAs, se eu não disser nada, como é que eu vou saber?

четвртак, јун 22

A solidão não se encontra, se faz. A solidão se faz sozinha. Eu
a fiz. Porque resolvi que ali eu deveria ficar só, para escrever
livros. Foi assim que aconteceu. Eu estava sozinha nesta casa.Eu me fechei – eu tive medo também, é claro. E depois eu
amei esta casa. Esta se tornou a casa da escrita.

DURAS, Marguerite

петак, јун 16

É como uma imagem que vêm de longe. São duas, lado a lado. Ao lado dela estou eu, eu nunca vi, mas me reconheço. Mas não me lembro de nada disso. Deve ter acontecido longe daqui, ou mais tarde.
Quero que se dane.
Se alguém entender o que eu disser, é porque me expressei mal.
- sim. Só acredito em histórias em que as testemunhas foram degoladas.

среда, јун 14

понедељак, јун 12

Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões

четвртак, јун 8

O TIGRE BRANCO

Uma Clareira
sempre
se abre à
minha passagem.
Um grande ectoplasma.
Os meus estojos carrego comigo,
pra quando me pinto
de vermelho,
e tudo em torno
desfalece.


Sou feliz.



Nada (esqueçamos
o invejoso tempo) me devora.
Repertir-me é
o único elo
com a necessidade
da eloquência.
Mas rápido retorno à
minha solidão extática e inexpugnável.


O verdadeiro rei sou eu.


( Ronald Polito)

уторак, јун 6

aquela dor não é ferida que se mostra, que se cura, que se preocupe; nego a ela o desejo do seu espetáculo. escondo. faço isso. não não não.

não.

recuso a medicina que ansia sedativa tratá-la da mesma forma, sob a mesma ferida, onde a vejo, ali sangrada. dói. e dói, pelas mãos de quem não a fez. e dói. loucamente sangra.

mãos perdidas.

mãos? mãos? de onde as mãos? de quem as mãos?

não concluo minha dor. as maõs não me apresentam uma sentença para acalmá-la, curá-la. mãos?

mãos?!

sempre uma mão para tratá-la. mãos? e cicatriza?

que me é doido de uma dor que não se imagina, que foge ao toque. quem tem a cura? para quê? de quem são as mãos? me fazem a cura? me cura e cura?

e essa cura sobre o não-sangrado? o exame que busca o sangue: sangue? onde sangra? que mãos me sangram? por que me sangra?

olham o meu sangue!! sangue? isso é sangue? não... eu que me esvaio, me diluo, me sangro, mas aonde sangra? ainda sangra? mãos? quem tem a cura?

"sim...", diz-me lá, "o sangue é verdadeiro. é vermelho. é corrido. e eu curo."

digo (com poros já melados): " e esse comprometimento com o inverídico?"; quem me diz, sobre aquela história sobre o nunca visto? sangue? quem o quer? me apresente! o meu sangue vermelho que nunca coagulou, que resiste, que fecha, que sobe à cabeça e não passa, a despeito do meu corpo, do vermelho, que extravia a maldita cicatriz?! ah...! a cicatriz, ela prova, ela condena e me empurra o seu olho suas mãos. o seu sangue? para o sangue. da morte? do sangue?

não carrego marcas, quem me põe marcas? não suporto as dores que pesam. quem me dói? quem me pesa? quem me sangra? e quase sangra, e quase fere, e ainda escorre e machuca, e machuca, e pesa, quase mata, mas não mata, quase mata!, e sangra, já vermelho, quase sangra!; mas não-vermelho, sem a cor, fulminante incolor, facilmente limpo.

me pegam o papel, me passam o papel, me tampam com papel. quem traz o papel?

me escondem a ferida de algo que ainda se faria doer de corte, de sangrar, de acabar invisível, vermelho, morto, melado cerrado fechado selado calado final.

понедељак, јун 5

" e a luxúria única de já não ter esperanças?"
Assim. Viva o colapso da humanidade. Da cultura. Do tempo e do espaço.
O espaço da poesia é o do isolamento e do retraimento. Não o silêncio, mas a interferÊncia surda, que se não se liga pelo bem comum, mas pela crueza de ainda ser algo, cambaleante, inacabado, cafona, mas ainda vivo.
Talvez o único vivente, já sem razão de ser, sem eira nem beira. Porque hoje há que ser cínico, hipócrita ou ingênuo pra acreditar.Três caminhos possíveis, ambos cretinos. O mundo já não comporta mais nenhuma crença que não seja uma cretinice.
Engula o chôro.

Pois, posso ser triste. Mas pior pra os neo-tarzanistas, que são feios e burros e não morrem nunca.

недеља, јун 4

недеља, мај 28

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.
Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
Se ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por `'star aqui ?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver ?

Fernando Pessoa

понедељак, мај 22

Neste lado de cá, não sou nada de palpável, pois vivo tanto com os mortos como com aqueles que ainda não nasceram, um pouco mais próximo da criação do que é habitual, embora ainda não suficientemente perto. Será que emana calor de mim? Frio??É impossível falar disto sem paixão. Quando estou mais longe é que me sinto mais piedoso. Por vezes, vejo-me, do lado de cá, um pouco malicioso. Isto são aspectos de um conjunto. Os padres não são suficientemente piedosos para o ver. E estes sábios ficam um pouco escandalizados.

Paul Klee

понедељак, мај 15

se pudesse falava, enrolava a língua, e sussurrava essa canção para vocês.

mas não me (nos) é possível, o que se há de fazer?


Gosto de sentir a minha lígua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesias está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua

"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O
que quer
O que pode
Esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem

Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e maria da
Fé e Arrigo barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O
que quer
O que pode
Esta língua?
Incrível

É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se
você tem uma idéia incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão

Blitz quer dizer corísco
Hollyood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qu’é qu’eu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Lívros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem...

(Caetano Veloso)

недеља, мај 14

o excesso de gente impede de ver as pessoas
fico aqui em silêncio.
cansada.
Love for sale,
fita-me...
mas saiba que somos incomunicáveis
eu gozo, peno, rio, desmaio.
pode ser assim?
teimosamente sangrando,
danço sobre as horas cotidianas.
E se vc não puder entender... fica assim:
é por vontade de deus esta ânsia.
um presente de deus esta angústia.


vire-se e retorne ao principado,
que fico aqui, Sem fim e sem sentido.
entenda,
eu não te acompanho mais.

понедељак, мај 8

Acordei sem um puto.
Rainha de um reino perdido,
desolado, mas muito digno.
Majestoso.

Entendi a falta de clareza dos fenômenos
a indelicadeza do sarcasmo mal embasado
a crueza dos amores não correspondidos e das literaturas de cordel
o laço com cerol que arremata histórias sem contexto.

Vi que os dias de maio ainda são os mais belos. Fotografia perfeita para filme de um diretor ainda-por-vir.Desce um café meio amargo em algumas xícaras de esperança e desilusão.
Somem-se todos os juros de uma dívida imperdoável e cobre com o sangue daquele desejo mais profundo, e indizível.

Sim, eu sou rainha do meu mundo. Inventora dos meus clichês e cafetina do meu corpo. Dona do meu prazer e da minha dor.
Já a cidade e a ruína,
o Pai, o morto, e
ao fundo,
o som das asas das borboletas gigantes azuis,
que sobrevoam a China.

субота, мај 6

E agora?
se?
mas, nada.
Retiraram a mesa. Agora vagam, estapafúrdios: o café e o sono, o pão e a fome, as flores sem jardim, a tesoura, o veneno, o pão-de-queijo, o ladrão boliviano, as arestas, as neuroses e as encenações.
Agora que não há mais lugar,
tudo na mais perfeita desordem.

Eu, vc e um outro não temos um passado. Somos assaltados pela presença sorrateira um do outro em locais submersos,
irrealizáveis.

среда, мај 3

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.

Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'

недеља, април 30

Somos todos poetas



Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

Murilo Mendes

среда, април 26

Interlúdio


As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.


Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.


Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.


Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.


Fico ao teu lado.


Cecília Meirelles

понедељак, април 24

Todas as palavras me escapam.
Todos sairam de férias
Todas as luas se foram
E as crianças dormem pra sempre
Só sei do meu desencontro
de mim para com o mundo
de mim para com os deuses, que abandonei antes do tempo
de mim para com meu tempo
de meu tempo para com meu espaço
de meus desejos para com meus cansaços
de meus reflexos para com meus reflexos,
e de todo o nada que sobra deles,
que é tudo que não se reduz a eles
e que persiste, insiste, dura e grita o esboço das palavras que já não me querem.
Aquela ruína de pé,gentalha que rebola, que rebola e fede,
lembra orgulhosa das coisas que poderiam ter sido diferentes
e é tão mais bela que a calculadora empenhada, símbolo infesto,
numa mesa de bar.


Choco-me contra o espelho, e o despedaçar nao produz nada além de um belo espetáculo

четвртак, април 20

Esta desmedida e inelutável insistência com que o azul me retorna sempre cativante e altivo, dissipando agruras, gripes, fantasmas e neuroses... nunca é um abandono da reflexividade ou do pensamento, não há irracional que me tome as redéas. É apenas encantamento, a mais potente e viril das razões...que não pertence, não é próprio de mim ou de tu, não se esgota na unidade determinada do meu organismo ou da sua psiquê.
O azul me escorre por toda manhã.

A configuração dos traços fredianos se enlançou enamorada dos cactos que moram na minha janela.
Eu não sei se os marcadores de texto do meu livro lembram confetes de carnaval ou bandeirolas de festa junina.
Há tb uma questão de indecidível amor pelos socrátes do mundo... pobres escravos...sejam eles de Hegel, de Nietzsche, de Angola, de Atenas, de mim...
Porque eu, meus amigos, queria ser meu pai, minha mãe e meu filho. O Satanás, Deus, e a virgem. Frederico, Salomé,vinícius,Severino, Catarina, Fernando, Ernesto,Luís...e EU.
Mas pensando um pouco melhor, querer é exagero... Já não sei se sou capaz de querer... tomo por hábito e costume esta mania de escrever e copio, copio, roubo e copio, para rir sacudidamente...
sarcastimente...
docemente...
livremente...
posto que,
nada.

четвртак, април 13

Penso na vida. Todos os sistemas que poderei edificar jamais igualarão os meus gritos de homem ocupado em refazer a sua vida... Estas forças informuladas que me assaltam deverão necessariamente ser um dia acolhidas pela minha razão, deverão instalar-se no pensamento, essas forças que do exterior tem a forma de um grito. Há gritos inbtelectuais, gritos que provêm da finura das médulas. É a isso que eu chamo a Carne.Não separo o meu pensamento da minha vida. Refaço a cada uma das vibrações da minha lingua todos os caminhos do pensamento da minha carne... Mas que sou eu no meio dessa teoria da Carne ou melhor, da existência? Sou um homemm que perdeu a vida e que procura por todos os meios fazer-lhe retomar o seu lugar... Mas é preciso que eu inspecione este sentido da carne que deve dar-me uma metafísica do Ser e o conhecimento definitivo da Vida.

Antonin Artaud, in: Position de la chair

среда, април 12

Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: «Não faças isto, não faças aquilo. Renuncia. Domina-te...». Gosto, pelo contrário, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da árvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, não se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. «É a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; é actuando que deixaremos», eis o que amo, eis o meu próprio placitum! Mas eu não quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, não quero essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia.

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

недеља, април 9

Rídicula esta posição de barriga pra baixo. Rastejas. Furas a parede na sua base. Esperas escapar-te, como um rato. Semelhante `a sombra, à manhã, na estrada.
E essa vontade de permanecer de pé. apesar da fadiga e da fome?
Um buraco, era apenas um buraco,
o destino do livro.
( Um buraco-polvo, a tua obra?
O polvo foi pendurado no teto e os tentáculos começaram a brilhar.)
Era apenas um buraco
na parede,
tão estreito que jamais
pudeste introduzir-se nele
para fugir.
Desconfiai das habitações. Nem sempre são acolhedoras.

Edmond Jabès

уторак, април 4

Hoje tive comigo o nada
Libertador nada

понедељак, април 3

Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar. E vou,
Anônimo, menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.

Álvaro de campos

четвртак, март 30

Areia, lodo, sal e terra
Do patético espetáculo à bravura vivida
O inavegável
imprevisto,
cansado,
morto.



Levanta. Disforme e díspare.incompleto, inconcluso, impotente.Ressurge. Anda de ressaca do mundo pela vida e da vida pelo mundo. Onde é que faz sentido?

Este atordoamento vazio pululante.Entope. Entorpe. Resseca. Como os cigarros ao corpo em uma ação contínua, independente do ato voluntário, muma autonomia cancerosa, ensadecida.O ultimo cigarro e a ultima cerveja e o unico beijo se foram a várias horas. Mas o cigarro resseca-me e a cerveja ressaca-me.
Somente beijos se perdem em sua efemeridade.

Acho que peguei carona para o lado oposto da vida.

среда, март 29

sinto que estou caindo em um buraco fundo fundo fundo
esse buraco é apertado, meu corpo está esprimido
comprimido na minha queda.
esse buraco não tem luz mas também não é escuro
não vejo nada nele, não sei se ele é, ou será, ou já foi?, vazio
ainda estou em queda, não sei do meu destino
não vejo O Buraco, apenas sinto a vertigem que vem dele que vem de mim que fica em mim que não sai de mim que não sai de mim que nao...
não sei por quê tombei, nem sei se foi um tombo
não sei se estou a cair, não sei qual o meu movimento
se realmente existo, além desse buraco inquieto
que cai fundo invisível
O Redemoinho.

недеља, март 26

Chega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento,
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.
Adormeço sem dormir, ao relento da vida.

É inútil dizer-me que as ações têm conseqüências.
É inútil eu saber que as ações usam conseqüências.
É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.

Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.

Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.

Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.

A.C

среда, март 22

Qual a diferença real entre suicídio e homicídio?

Não tenho nome. Ele não tem nome. Não é possível a ninguém o nome. Não. Também não vemos ninguém neste lugar. Não há nada para se ver aqui não. Triturado, o cigarro acesso era uma luz. Não tem luz. O cigarro acesso era chama e fumaça. Em você era desejo, alívio, vício, mal, costume.

Dois. Não. Único. Tudo. Exceção.

Na janela, a espreitar o corpo, o desejo, o vício, o mal, o costume e a doença, estava não. Não estava ninguém também naquela mesma noite ainda na janela. Ainda não. Foi somente por um acaso que o corpo pediu o escuro do cigarro que não é luz que não quer iluminar. Não foi acaso. Não? Do outro lado o desejo do cigarro não era o mesmo desejo do olhar, da luz, e da sua falta. Não havia cigarro lá. Nem luz. Não havia nada, até então. De um lado cigarro do outro não, eles se olhavam, mas se recusavam a ser vistos.

Essa cena se repetiu uma duas três quatro cinco seis vezes: janela noite luz sua falta cigarro boca fumaça desejo.

Ele te conhece. Não: ele conhece ele você.
Você o quer? Não. Ele te quer? Não: ele quer ele você.
Ele pode? Não. Mas ele não espera, não aguarda; ele avança sobre você, ele olha para você. Ele só sabe ele você. E você? Não.

Uma noite sem você. Sem ele você. Sem dúvida, você já não é você, nem ele, nem ele você. Não. Você ele. Você aparece. Seu corpo já traga o cigarro, já sente o desejo que queima a garganta. Aquele é ele. Não. Aquele é você ele. A janela é desejo, o cigarro é escuridão, a fumaça é noite, a boca é luz.

Dia após dia. Não. Seu encontro é noturno, às escuras, com o cigarro (ora, não seja covarde! com quem?). Noite após noite seu encontro era com ele. Não era. De fato, seu encontro era com você ele. E o dele? Não: com ele você. Com quem afinal? Quando vocês, os dois e seus múltiplos, permitiriam, finalmente, um encontro de todos com ninguém? Não? Essa era a sua pergunta. Não, era a sua angústia. Seria a dele? Não.

Na décima quarta noite, após o primeiro olhar, ele você não suportou mais tanto esperar. Queria seguir, avançar, como ele sempre avançara, sempre. Não: você também deve confessar que passou a ir ao encontro dele. Foi chamado para olhar o corpo, a janela, ele. Mas ele não suportava mais tanta vontade, tanto guardar, não resistia mais a ele você. E mesmo que sentimento semelhante não rondasse sua cabeça, ainda que você quissesse ser somente não, você e você ele, talvez, por quê não?, ainda que seu corpo fosse feito de vício e de olhar, matéria desejo e desgaste, ainda assim, você nada poderia ter feito naquela noite, naquela sua décima quarta e última noite. Sua? Não. Dele? Não.

O vidro estilhaça: agora cacos no chão você irremediável. O disparo acertou seu peito em cheio manchando de sangue o corpo viciado caindo caído não sei aonde segura, não... Você rosna, somos dois animais tão inimigos, sou eu sozinho tudo o que ninguém jamais poderá transpor o corpo profanado pela própria merda puído pela vontade de quem vem e passa antes de chegar em algum lugar morrer morrer morrer é a minha vontade desde que olhei você, ao fim você ele, não ele você, não não não agora ele apenas você miseravelmente morto, não ainda vivo, você não se liga a ele e na sua apocalíptica hora de dor e morte você se despede de tudo quanto é possível oferecendo a sua morte a ele com o brinde de quem bebe o próprio sangue em luto e na ressurreição. Ele morreu. Não. Você. Não. Quem morreu?

"É triste já ter traçado diante dos olhos a daninha esperança de coisa nenhuma", você lia, ou será que lamentava, antecipadamente, sobre o futuro dele?

уторак, март 21

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com u te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

недеља, март 19

eu circeando,
ele leviano levando suas frivolidades na bolsa.
o outro não compreendendo porque está de pé.
ela escondendo do nada que é si mesma.
A presença esquiva dança perante a indiferença subjetiva do universo emaranhado,
estruturalmente vazio, conjunturalmente escroto, essencialmente fútil...
posso tecer teorias sobre todos os destinos e,
ainda assim,
ainda é assim
a ânsia humana não passa de um sonho histérico.

четвртак, март 16

Quanto Mais Vela Mais Acesa



Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.


Elisa Lucinda
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

недеља, март 12

субота, март 11

Não adianta me perguntar. Eu não sei.Os ritos são tão vazios mas fazem bem a alma. Um abraço desencontrado é melhor do que nenhum. Há arranhões por todo meus eus. Eu já não sei mais o que fazer com essa anarquia interior.Há hordas desordeiras que me habitam tornando tudo muito mais difícil e doloroso. Por que? não, não há o menor motivo, ou pelo menos nenhum que seja simples assim, causal e definitivo. Eu tento me jogar na linguagem pra ser alguma coisa, mas encontro silêncios por todos os lados. Jorra então essa angústia, de nada e pra lugar nenhum, de nenhum lugar. E eu fico aqui, assim, posto que não sei.
Perdi de vista ao longe, esta coisa que a gente chama de horizonte.Não consigo escrever com verdade. Me falaram que aquele que conta uma história é o único sobrevivente dela. Por isso não conto histórias, acho. Eu não vou chegar até o final. Estes rastros que deixam são as pistas pra algum dia, alguém contar que numa manhã de novembro nasceu uma menina, e que ela simplesmente não conseguiu entender o porque de tudo isso.

петак, март 10

Seria tão ingênuo pensar que finalmente foi suficiente. Que, ainda que fosse por um mísero segundo, foi o bastante.
Só por um momento.
Mas não.
"Vc não tem amor no coração."

Não importa, não pode escolher.
Não se adapta, não confere, não crê.

Meu apoio é uma prancha bamba num oceano que nunca existiu.


E a vida foram os olhos vermelhos que escondi de todos atrás de
um gracioso sorriso.

уторак, март 7

Pecado Original

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

Álvaro de Campos

недеља, март 5

Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios - chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) - de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa.

Virginia Woolf, in "Orlando".

петак, март 3

Tenho febre.
pontualmente me lembro de tudo.
Não me alcanço.
Meu corpo pesa toda essa realidade. Às 4 da manha... O espelho reflete o ardor dos meus olhos. Me espalho pela poltrona vermelha.
Ainda sinto a naúsea do último cigarro. A tv fala sozinha danças irrepreensíveis. A luz acesa, apagada, acesa, apagada... que diferença faz?
POr que que todo o tédio nunca termina bem?
Por que não fui buscar?
Por que c. buarque faz as vesgas ficarem lindas?
Hoje fui trabalhar e tomei muita chuva. Minha cabeça dói. Comprei livros e renovei o vermelho das unhas.
vi meu eu lírico discordar do eu poético, e o particular des-coincidir com o geral.Sei que não tenho forças, e transtornada, aceito mais um gole do meu próprio veneno.
Não, não é tristeza. Apenas febre e (...).

четвртак, март 2

Quem pisou? Quem passou? Quem riscou? Olhei. Sentei. Risquei. Quem? Alguém?

"... talvez eu também tivesse de escrever a minha história com giz na calçada e me sentar ao lado para ouvir o que as pessoas dizem. Ao menos nos olharíamos um pouco de frente. Mas talvez ninguém prestasse atenção e tudo se apagasse de tanto pisarem em cima."

(Vento Numa Cidade, Italo Calvino)