уторак, јул 4

-Então, nada mais resta?
- nada mais.
Todas estas músicas, todos estes tropeços, tantas mágoas, tantos risos, tantos nadas...
- é. nada mais importa.
Penso que estou cansada dessa história de ser mais que fútil, tanto quanto estou cansada de ser só tão fútil.
- a gente toma uma saideira.
Ele me vê. quem me vê? tantos me vêem. Eu nunca vejo.Sinto asco em ser vista. Mas tudo continua.
- só mais uma. carreira.
contínua, continua. tenho raiva, tenho pressa, tenho pena.
- mas só agora vc notou que nós existimos?
- já não importa.
mais uma, mais uma.
Um copo, uma pessoa, um doce, um afeto, um cansaço, um...
-e quem vai pagar por isso?
- quem será capaz de calar-me a dor?
a vida, a vida, a vida.
eu finjo rir.
eu também finjo chorar.
- estamos num mundo onde não sente mais nada.Direita ou esquerda, humanas ou exatas. Estamos no mundo onde.
-mais uma,
- ... e o dia amanhece.

понедељак, јун 26

"Isso dá uma história?" Mesmo que a intenção da escrita seja clara de boa marca, das melhores, a razão de tudo aquilo era tão sombria traiçoeira perdida que a pergunta não era estranha para tamanha atração. Escrever o que fosse seria aventurar-me a riscar o cimento branco reto frio ao meu lado sob as minhas costas com a tinta negra do abecedário, meio por meio, meio por cima meio por baixo, sem voltar ao começo nem chegar ao fim. Seria voltar-me para ali, emparedado.

Por baixo aquilo foi um grande sono. Quando burlava a vigília minha cabeça sonâmbula andava por mundos nunca dantes vistos. Meu dedo desenhava sob a pele alvos-desejo aonde meus dentes fariam o trabalho bruto de aspirá-los. Meu corpo ainda soluçava ao toque tentado enquanto a mão, essa que pega fecha e segura, fraquejava ao insistir agarrar o ar quente brilhante que circulava do quarto da boca de mim. Primeiro bate bate. Tudo eu ganhava quando tudo eu perdia. Desatei a me rasgar naquela colcha de arames cortantes que corta fino e doloroso quando mais eu me batia e debato gritando ai ai ai mais corta cortantes cortes invisíveis pululantes de tão puros de pele quase sangram não confirmo se sangram sinto que escôo deságuo me liquido mas não sei se há um filete de sangue escorrendo e manchando esse lado da parede. Alguém sabe?

Por cima poderiam ser as estrelas. Cada marquinha letrinha palavra frase solta em verso aspas travessão na parede cortinavam-me constelações superiores cintilantes paralelas às minhas costas ao peito à palma da minha mão alheadas ao meu prazer e inspiradas em me vigiar prender enrolar-me e rasgar-me com essa colcha felpuda de arame farpado. A parede branca tinha já o seu reverso em um buraco negro. Quase-preso, sugado para aquele interior, arrisquei: "A perda seria o melhor preço".

"Qual é o preço para gastar isso?" perguntei, "Isso?? Isso é impagável..." a voz rouca respondeu-me, "Ok, quanto?" reafirmei meu desejo de desperdício, "Não tem preço, já lhe disse meu querido" retomou a resposta, "Filhodaputa não estou perguntando se você teria milhão para pagar isso eu lhe pergunto qual é o gasto disso?", "... ... ..."
Protestei furioso à ignorante pobreza do meu vendedor e tomei de assalto o precioso bem que só pedia o meu gasto maldito. Bandido, ainda temo a cadeia por esse meu ato. Subserviente, adotei a lógica do sistema. Sem saber, já caí na prisão.

Meio por meio aquilo era o outro ausente, fetiche. Assombro do que me escapa gasta e cobra do que me compra pede do que eu dou gasto rubro roubo pago cubro sopro vejo rio sozinho sinto que choro mas não choro daquilo que eu reclamo todavia eu não reclamo. Palavrinha por palavrinha meu redemoinho é aquela rachadura na parede cuja volta traz letrinhas cadentes para marcar por onde eu devo olhar. Ah, aquela parade, aquelas palavras, aquele astro no céu pêlos pele sem sangue sujos gozados amassados um sobre o outro, ah, aquelas palavras flutuando na parede... Mas o que era mesmo que estava escrito por lá? Não consigo recordar tudo direito para fazer essa história correta. Acho que li aquilo torto inclinado sobre o meu tronco. Meio por meio quase em silêncio antes de sonhar perguntei às palavras: "Isso dá uma história?". Não nunca deu. Sempre acaba e nunca para. (Quem me respondeu?)
Enquanto o Mundo gira, eu oscilo cambaleante.

субота, јун 24

todos pertos. E longe demais.
um me sussura pelas costas promessas de um mundo mágico. Onde vc quer chegar?
Nesse lugar não me reconheço. Seduze-me a estranheza;
Ali,
eu sou outra pessoa.
O outro sou eu.
Mais eu do que eu mesmo. Tão mais do eu mesmo que me faz desdobrar.
Ali, eu sou eu mesma, e mais tudo o que quiser.
Seduz-me porque potência.

Um não me conhece, mas pensa que sim.
outro me conhece plenamente, mas ainda não sabe.
-Eu não estou.
Não precisa escolher. Eu não quero cutucar o que eu sinto. Não se faz autópsia do que não nasceu. MAs, se eu não disser nada, como é que eu vou saber?

четвртак, јун 22

A solidão não se encontra, se faz. A solidão se faz sozinha. Eu
a fiz. Porque resolvi que ali eu deveria ficar só, para escrever
livros. Foi assim que aconteceu. Eu estava sozinha nesta casa.Eu me fechei – eu tive medo também, é claro. E depois eu
amei esta casa. Esta se tornou a casa da escrita.

DURAS, Marguerite

петак, јун 16

É como uma imagem que vêm de longe. São duas, lado a lado. Ao lado dela estou eu, eu nunca vi, mas me reconheço. Mas não me lembro de nada disso. Deve ter acontecido longe daqui, ou mais tarde.
Quero que se dane.
Se alguém entender o que eu disser, é porque me expressei mal.
- sim. Só acredito em histórias em que as testemunhas foram degoladas.

среда, јун 14

понедељак, јун 12

Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões

четвртак, јун 8

O TIGRE BRANCO

Uma Clareira
sempre
se abre à
minha passagem.
Um grande ectoplasma.
Os meus estojos carrego comigo,
pra quando me pinto
de vermelho,
e tudo em torno
desfalece.


Sou feliz.



Nada (esqueçamos
o invejoso tempo) me devora.
Repertir-me é
o único elo
com a necessidade
da eloquência.
Mas rápido retorno à
minha solidão extática e inexpugnável.


O verdadeiro rei sou eu.


( Ronald Polito)

уторак, јун 6

aquela dor não é ferida que se mostra, que se cura, que se preocupe; nego a ela o desejo do seu espetáculo. escondo. faço isso. não não não.

não.

recuso a medicina que ansia sedativa tratá-la da mesma forma, sob a mesma ferida, onde a vejo, ali sangrada. dói. e dói, pelas mãos de quem não a fez. e dói. loucamente sangra.

mãos perdidas.

mãos? mãos? de onde as mãos? de quem as mãos?

não concluo minha dor. as maõs não me apresentam uma sentença para acalmá-la, curá-la. mãos?

mãos?!

sempre uma mão para tratá-la. mãos? e cicatriza?

que me é doido de uma dor que não se imagina, que foge ao toque. quem tem a cura? para quê? de quem são as mãos? me fazem a cura? me cura e cura?

e essa cura sobre o não-sangrado? o exame que busca o sangue: sangue? onde sangra? que mãos me sangram? por que me sangra?

olham o meu sangue!! sangue? isso é sangue? não... eu que me esvaio, me diluo, me sangro, mas aonde sangra? ainda sangra? mãos? quem tem a cura?

"sim...", diz-me lá, "o sangue é verdadeiro. é vermelho. é corrido. e eu curo."

digo (com poros já melados): " e esse comprometimento com o inverídico?"; quem me diz, sobre aquela história sobre o nunca visto? sangue? quem o quer? me apresente! o meu sangue vermelho que nunca coagulou, que resiste, que fecha, que sobe à cabeça e não passa, a despeito do meu corpo, do vermelho, que extravia a maldita cicatriz?! ah...! a cicatriz, ela prova, ela condena e me empurra o seu olho suas mãos. o seu sangue? para o sangue. da morte? do sangue?

não carrego marcas, quem me põe marcas? não suporto as dores que pesam. quem me dói? quem me pesa? quem me sangra? e quase sangra, e quase fere, e ainda escorre e machuca, e machuca, e pesa, quase mata, mas não mata, quase mata!, e sangra, já vermelho, quase sangra!; mas não-vermelho, sem a cor, fulminante incolor, facilmente limpo.

me pegam o papel, me passam o papel, me tampam com papel. quem traz o papel?

me escondem a ferida de algo que ainda se faria doer de corte, de sangrar, de acabar invisível, vermelho, morto, melado cerrado fechado selado calado final.

понедељак, јун 5

" e a luxúria única de já não ter esperanças?"
Assim. Viva o colapso da humanidade. Da cultura. Do tempo e do espaço.
O espaço da poesia é o do isolamento e do retraimento. Não o silêncio, mas a interferÊncia surda, que se não se liga pelo bem comum, mas pela crueza de ainda ser algo, cambaleante, inacabado, cafona, mas ainda vivo.
Talvez o único vivente, já sem razão de ser, sem eira nem beira. Porque hoje há que ser cínico, hipócrita ou ingênuo pra acreditar.Três caminhos possíveis, ambos cretinos. O mundo já não comporta mais nenhuma crença que não seja uma cretinice.
Engula o chôro.

Pois, posso ser triste. Mas pior pra os neo-tarzanistas, que são feios e burros e não morrem nunca.

недеља, јун 4

недеља, мај 28

Hoje que a tarde é calma e o céu tranqüilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.
Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
Se ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por `'star aqui ?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver ?

Fernando Pessoa

понедељак, мај 22

Neste lado de cá, não sou nada de palpável, pois vivo tanto com os mortos como com aqueles que ainda não nasceram, um pouco mais próximo da criação do que é habitual, embora ainda não suficientemente perto. Será que emana calor de mim? Frio??É impossível falar disto sem paixão. Quando estou mais longe é que me sinto mais piedoso. Por vezes, vejo-me, do lado de cá, um pouco malicioso. Isto são aspectos de um conjunto. Os padres não são suficientemente piedosos para o ver. E estes sábios ficam um pouco escandalizados.

Paul Klee

понедељак, мај 15

se pudesse falava, enrolava a língua, e sussurrava essa canção para vocês.

mas não me (nos) é possível, o que se há de fazer?


Gosto de sentir a minha lígua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesias está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua

"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O
que quer
O que pode
Esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Sejamos o lobo do lobo do homem

Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e maria da
Fé e Arrigo barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O
que quer
O que pode
Esta língua?
Incrível

É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se
você tem uma idéia incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão

Blitz quer dizer corísco
Hollyood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria

Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qu’é qu’eu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Lívros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem...

(Caetano Veloso)

недеља, мај 14

o excesso de gente impede de ver as pessoas
fico aqui em silêncio.
cansada.
Love for sale,
fita-me...
mas saiba que somos incomunicáveis
eu gozo, peno, rio, desmaio.
pode ser assim?
teimosamente sangrando,
danço sobre as horas cotidianas.
E se vc não puder entender... fica assim:
é por vontade de deus esta ânsia.
um presente de deus esta angústia.


vire-se e retorne ao principado,
que fico aqui, Sem fim e sem sentido.
entenda,
eu não te acompanho mais.

понедељак, мај 8

Acordei sem um puto.
Rainha de um reino perdido,
desolado, mas muito digno.
Majestoso.

Entendi a falta de clareza dos fenômenos
a indelicadeza do sarcasmo mal embasado
a crueza dos amores não correspondidos e das literaturas de cordel
o laço com cerol que arremata histórias sem contexto.

Vi que os dias de maio ainda são os mais belos. Fotografia perfeita para filme de um diretor ainda-por-vir.Desce um café meio amargo em algumas xícaras de esperança e desilusão.
Somem-se todos os juros de uma dívida imperdoável e cobre com o sangue daquele desejo mais profundo, e indizível.

Sim, eu sou rainha do meu mundo. Inventora dos meus clichês e cafetina do meu corpo. Dona do meu prazer e da minha dor.
Já a cidade e a ruína,
o Pai, o morto, e
ao fundo,
o som das asas das borboletas gigantes azuis,
que sobrevoam a China.

субота, мај 6

E agora?
se?
mas, nada.
Retiraram a mesa. Agora vagam, estapafúrdios: o café e o sono, o pão e a fome, as flores sem jardim, a tesoura, o veneno, o pão-de-queijo, o ladrão boliviano, as arestas, as neuroses e as encenações.
Agora que não há mais lugar,
tudo na mais perfeita desordem.

Eu, vc e um outro não temos um passado. Somos assaltados pela presença sorrateira um do outro em locais submersos,
irrealizáveis.

среда, мај 3

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.

Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'

недеља, април 30

Somos todos poetas



Assisto em mim a um desdobrar de planos.
as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move,
A luz desce das origens através dos tempos
E caminha desde já
Na frente dos meus sucessores.
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um,
Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego,
Pelos gritos isolados que não entraram no coro.
Sou responsável pelas auroras que não se levantam
E pela angústia que cresce dia a dia.

Murilo Mendes

среда, април 26

Interlúdio


As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.


Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.


Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.


Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.


Fico ao teu lado.


Cecília Meirelles

понедељак, април 24

Todas as palavras me escapam.
Todos sairam de férias
Todas as luas se foram
E as crianças dormem pra sempre
Só sei do meu desencontro
de mim para com o mundo
de mim para com os deuses, que abandonei antes do tempo
de mim para com meu tempo
de meu tempo para com meu espaço
de meus desejos para com meus cansaços
de meus reflexos para com meus reflexos,
e de todo o nada que sobra deles,
que é tudo que não se reduz a eles
e que persiste, insiste, dura e grita o esboço das palavras que já não me querem.
Aquela ruína de pé,gentalha que rebola, que rebola e fede,
lembra orgulhosa das coisas que poderiam ter sido diferentes
e é tão mais bela que a calculadora empenhada, símbolo infesto,
numa mesa de bar.


Choco-me contra o espelho, e o despedaçar nao produz nada além de um belo espetáculo

четвртак, април 20

Esta desmedida e inelutável insistência com que o azul me retorna sempre cativante e altivo, dissipando agruras, gripes, fantasmas e neuroses... nunca é um abandono da reflexividade ou do pensamento, não há irracional que me tome as redéas. É apenas encantamento, a mais potente e viril das razões...que não pertence, não é próprio de mim ou de tu, não se esgota na unidade determinada do meu organismo ou da sua psiquê.
O azul me escorre por toda manhã.

A configuração dos traços fredianos se enlançou enamorada dos cactos que moram na minha janela.
Eu não sei se os marcadores de texto do meu livro lembram confetes de carnaval ou bandeirolas de festa junina.
Há tb uma questão de indecidível amor pelos socrátes do mundo... pobres escravos...sejam eles de Hegel, de Nietzsche, de Angola, de Atenas, de mim...
Porque eu, meus amigos, queria ser meu pai, minha mãe e meu filho. O Satanás, Deus, e a virgem. Frederico, Salomé,vinícius,Severino, Catarina, Fernando, Ernesto,Luís...e EU.
Mas pensando um pouco melhor, querer é exagero... Já não sei se sou capaz de querer... tomo por hábito e costume esta mania de escrever e copio, copio, roubo e copio, para rir sacudidamente...
sarcastimente...
docemente...
livremente...
posto que,
nada.

четвртак, април 13

Penso na vida. Todos os sistemas que poderei edificar jamais igualarão os meus gritos de homem ocupado em refazer a sua vida... Estas forças informuladas que me assaltam deverão necessariamente ser um dia acolhidas pela minha razão, deverão instalar-se no pensamento, essas forças que do exterior tem a forma de um grito. Há gritos inbtelectuais, gritos que provêm da finura das médulas. É a isso que eu chamo a Carne.Não separo o meu pensamento da minha vida. Refaço a cada uma das vibrações da minha lingua todos os caminhos do pensamento da minha carne... Mas que sou eu no meio dessa teoria da Carne ou melhor, da existência? Sou um homemm que perdeu a vida e que procura por todos os meios fazer-lhe retomar o seu lugar... Mas é preciso que eu inspecione este sentido da carne que deve dar-me uma metafísica do Ser e o conhecimento definitivo da Vida.

Antonin Artaud, in: Position de la chair

среда, април 12

Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: «Não faças isto, não faças aquilo. Renuncia. Domina-te...». Gosto, pelo contrário, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da árvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, não se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. «É a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; é actuando que deixaremos», eis o que amo, eis o meu próprio placitum! Mas eu não quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, não quero essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia.

Friedrich Nietzsche, in 'A Gaia Ciência'

недеља, април 9

Rídicula esta posição de barriga pra baixo. Rastejas. Furas a parede na sua base. Esperas escapar-te, como um rato. Semelhante `a sombra, à manhã, na estrada.
E essa vontade de permanecer de pé. apesar da fadiga e da fome?
Um buraco, era apenas um buraco,
o destino do livro.
( Um buraco-polvo, a tua obra?
O polvo foi pendurado no teto e os tentáculos começaram a brilhar.)
Era apenas um buraco
na parede,
tão estreito que jamais
pudeste introduzir-se nele
para fugir.
Desconfiai das habitações. Nem sempre são acolhedoras.

Edmond Jabès

уторак, април 4

Hoje tive comigo o nada
Libertador nada

понедељак, април 3

Tenho náusea carnal do meu destino.
Quase me cansa me cansar. E vou,
Anônimo, menino,
Por meu ser fora à busca de quem sou.

Álvaro de campos

четвртак, март 30

Areia, lodo, sal e terra
Do patético espetáculo à bravura vivida
O inavegável
imprevisto,
cansado,
morto.



Levanta. Disforme e díspare.incompleto, inconcluso, impotente.Ressurge. Anda de ressaca do mundo pela vida e da vida pelo mundo. Onde é que faz sentido?

Este atordoamento vazio pululante.Entope. Entorpe. Resseca. Como os cigarros ao corpo em uma ação contínua, independente do ato voluntário, muma autonomia cancerosa, ensadecida.O ultimo cigarro e a ultima cerveja e o unico beijo se foram a várias horas. Mas o cigarro resseca-me e a cerveja ressaca-me.
Somente beijos se perdem em sua efemeridade.

Acho que peguei carona para o lado oposto da vida.

среда, март 29

sinto que estou caindo em um buraco fundo fundo fundo
esse buraco é apertado, meu corpo está esprimido
comprimido na minha queda.
esse buraco não tem luz mas também não é escuro
não vejo nada nele, não sei se ele é, ou será, ou já foi?, vazio
ainda estou em queda, não sei do meu destino
não vejo O Buraco, apenas sinto a vertigem que vem dele que vem de mim que fica em mim que não sai de mim que não sai de mim que nao...
não sei por quê tombei, nem sei se foi um tombo
não sei se estou a cair, não sei qual o meu movimento
se realmente existo, além desse buraco inquieto
que cai fundo invisível
O Redemoinho.

недеља, март 26

Chega através do dia de névoa alguma coisa do esquecimento,
Vem brandamente com a tarde a oportunidade da perda.
Adormeço sem dormir, ao relento da vida.

É inútil dizer-me que as ações têm conseqüências.
É inútil eu saber que as ações usam conseqüências.
É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.

Através do dia de névoa não chega coisa nenhuma.

Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante anunciado,
De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.

Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.

A.C

среда, март 22

Qual a diferença real entre suicídio e homicídio?

Não tenho nome. Ele não tem nome. Não é possível a ninguém o nome. Não. Também não vemos ninguém neste lugar. Não há nada para se ver aqui não. Triturado, o cigarro acesso era uma luz. Não tem luz. O cigarro acesso era chama e fumaça. Em você era desejo, alívio, vício, mal, costume.

Dois. Não. Único. Tudo. Exceção.

Na janela, a espreitar o corpo, o desejo, o vício, o mal, o costume e a doença, estava não. Não estava ninguém também naquela mesma noite ainda na janela. Ainda não. Foi somente por um acaso que o corpo pediu o escuro do cigarro que não é luz que não quer iluminar. Não foi acaso. Não? Do outro lado o desejo do cigarro não era o mesmo desejo do olhar, da luz, e da sua falta. Não havia cigarro lá. Nem luz. Não havia nada, até então. De um lado cigarro do outro não, eles se olhavam, mas se recusavam a ser vistos.

Essa cena se repetiu uma duas três quatro cinco seis vezes: janela noite luz sua falta cigarro boca fumaça desejo.

Ele te conhece. Não: ele conhece ele você.
Você o quer? Não. Ele te quer? Não: ele quer ele você.
Ele pode? Não. Mas ele não espera, não aguarda; ele avança sobre você, ele olha para você. Ele só sabe ele você. E você? Não.

Uma noite sem você. Sem ele você. Sem dúvida, você já não é você, nem ele, nem ele você. Não. Você ele. Você aparece. Seu corpo já traga o cigarro, já sente o desejo que queima a garganta. Aquele é ele. Não. Aquele é você ele. A janela é desejo, o cigarro é escuridão, a fumaça é noite, a boca é luz.

Dia após dia. Não. Seu encontro é noturno, às escuras, com o cigarro (ora, não seja covarde! com quem?). Noite após noite seu encontro era com ele. Não era. De fato, seu encontro era com você ele. E o dele? Não: com ele você. Com quem afinal? Quando vocês, os dois e seus múltiplos, permitiriam, finalmente, um encontro de todos com ninguém? Não? Essa era a sua pergunta. Não, era a sua angústia. Seria a dele? Não.

Na décima quarta noite, após o primeiro olhar, ele você não suportou mais tanto esperar. Queria seguir, avançar, como ele sempre avançara, sempre. Não: você também deve confessar que passou a ir ao encontro dele. Foi chamado para olhar o corpo, a janela, ele. Mas ele não suportava mais tanta vontade, tanto guardar, não resistia mais a ele você. E mesmo que sentimento semelhante não rondasse sua cabeça, ainda que você quissesse ser somente não, você e você ele, talvez, por quê não?, ainda que seu corpo fosse feito de vício e de olhar, matéria desejo e desgaste, ainda assim, você nada poderia ter feito naquela noite, naquela sua décima quarta e última noite. Sua? Não. Dele? Não.

O vidro estilhaça: agora cacos no chão você irremediável. O disparo acertou seu peito em cheio manchando de sangue o corpo viciado caindo caído não sei aonde segura, não... Você rosna, somos dois animais tão inimigos, sou eu sozinho tudo o que ninguém jamais poderá transpor o corpo profanado pela própria merda puído pela vontade de quem vem e passa antes de chegar em algum lugar morrer morrer morrer é a minha vontade desde que olhei você, ao fim você ele, não ele você, não não não agora ele apenas você miseravelmente morto, não ainda vivo, você não se liga a ele e na sua apocalíptica hora de dor e morte você se despede de tudo quanto é possível oferecendo a sua morte a ele com o brinde de quem bebe o próprio sangue em luto e na ressurreição. Ele morreu. Não. Você. Não. Quem morreu?

"É triste já ter traçado diante dos olhos a daninha esperança de coisa nenhuma", você lia, ou será que lamentava, antecipadamente, sobre o futuro dele?

уторак, март 21

Quero saber

Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com u te dou o meu
com uma condição: não nos compreender

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

недеља, март 19

eu circeando,
ele leviano levando suas frivolidades na bolsa.
o outro não compreendendo porque está de pé.
ela escondendo do nada que é si mesma.
A presença esquiva dança perante a indiferença subjetiva do universo emaranhado,
estruturalmente vazio, conjunturalmente escroto, essencialmente fútil...
posso tecer teorias sobre todos os destinos e,
ainda assim,
ainda é assim
a ânsia humana não passa de um sonho histérico.

четвртак, март 16

Quanto Mais Vela Mais Acesa



Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério
Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas
Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.
Ensaio:
Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos res-piração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:
Menos pausa, meu Deus
menos pausa.


Elisa Lucinda
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

недеља, март 12

субота, март 11

Não adianta me perguntar. Eu não sei.Os ritos são tão vazios mas fazem bem a alma. Um abraço desencontrado é melhor do que nenhum. Há arranhões por todo meus eus. Eu já não sei mais o que fazer com essa anarquia interior.Há hordas desordeiras que me habitam tornando tudo muito mais difícil e doloroso. Por que? não, não há o menor motivo, ou pelo menos nenhum que seja simples assim, causal e definitivo. Eu tento me jogar na linguagem pra ser alguma coisa, mas encontro silêncios por todos os lados. Jorra então essa angústia, de nada e pra lugar nenhum, de nenhum lugar. E eu fico aqui, assim, posto que não sei.
Perdi de vista ao longe, esta coisa que a gente chama de horizonte.Não consigo escrever com verdade. Me falaram que aquele que conta uma história é o único sobrevivente dela. Por isso não conto histórias, acho. Eu não vou chegar até o final. Estes rastros que deixam são as pistas pra algum dia, alguém contar que numa manhã de novembro nasceu uma menina, e que ela simplesmente não conseguiu entender o porque de tudo isso.

петак, март 10

Seria tão ingênuo pensar que finalmente foi suficiente. Que, ainda que fosse por um mísero segundo, foi o bastante.
Só por um momento.
Mas não.
"Vc não tem amor no coração."

Não importa, não pode escolher.
Não se adapta, não confere, não crê.

Meu apoio é uma prancha bamba num oceano que nunca existiu.


E a vida foram os olhos vermelhos que escondi de todos atrás de
um gracioso sorriso.

уторак, март 7

Pecado Original

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

Álvaro de Campos

недеља, март 5

Esses eus de que somos feitos, sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios - chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) - de modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que os seus diversos eus estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e ridículos para figurarem numa obra impressa.

Virginia Woolf, in "Orlando".

петак, март 3

Tenho febre.
pontualmente me lembro de tudo.
Não me alcanço.
Meu corpo pesa toda essa realidade. Às 4 da manha... O espelho reflete o ardor dos meus olhos. Me espalho pela poltrona vermelha.
Ainda sinto a naúsea do último cigarro. A tv fala sozinha danças irrepreensíveis. A luz acesa, apagada, acesa, apagada... que diferença faz?
POr que que todo o tédio nunca termina bem?
Por que não fui buscar?
Por que c. buarque faz as vesgas ficarem lindas?
Hoje fui trabalhar e tomei muita chuva. Minha cabeça dói. Comprei livros e renovei o vermelho das unhas.
vi meu eu lírico discordar do eu poético, e o particular des-coincidir com o geral.Sei que não tenho forças, e transtornada, aceito mais um gole do meu próprio veneno.
Não, não é tristeza. Apenas febre e (...).

четвртак, март 2

Quem pisou? Quem passou? Quem riscou? Olhei. Sentei. Risquei. Quem? Alguém?

"... talvez eu também tivesse de escrever a minha história com giz na calçada e me sentar ao lado para ouvir o que as pessoas dizem. Ao menos nos olharíamos um pouco de frente. Mas talvez ninguém prestasse atenção e tudo se apagasse de tanto pisarem em cima."

(Vento Numa Cidade, Italo Calvino)

четвртак, фебруар 23

Neste pedacinho de mundo que recortei agora, sou. VocÊ, meu par. Dançamos madrugada a dentro, para sempre. Viro-me de lado, e escapo. Já não sou mais quem dança. Sou aquela que chora, no quarto escuro, sem luz nem vela.Esperando um tempo que nunca virá. Presto atenção e percebo, estou num bar, ébria, cercada de gente, conversas, risos, vidas. Já me esqueço de tudo. Sou agora no silêncio escondido de uma biblioteca, prazer secreto, palpitante. Pois que novamente escorrego, ando pelas ruas, o sol me derrete, encontro conforto na esperança da sombra que nunca vêm. Uma brisa e já converso, na intimidade artificial e efêmera, posições filosóficas e destinos pro mundo, delineo-me ali; mas, pisco e estou, na festa, linda, dançando. Você ainda meu meu par.
Mas, estou só também.
Choco-me de encontro a tudo isso, e ao mais que não se reduz. Que resulta? fragmentos que percorrem os arredores irregulares da minha mais sincera emoção.Tudo misturado, causando a naúsea típica de quem em seu interior fundiu o "de novo" e "ainda".
Que é meu tempo? Que tempo é esse que varia em mim? Eu vario nele?

уторак, фебруар 21

Ele tem os olhos fixos no ventilador de teto.Sua mente gira com ele. Entorpece para ver o mundo girar mais devagar. Não entendendo pra que sorver a vida com tanta atenção. Pra que preencher os espaços vazios com espessos sentimentos irrealizáveis?
(Acho esquisito.)
Não me cabe saber.
Como exigir de outros meu apreço pela contemplação de abismos?
Ele vê o nada abissal, e ainda que sem asas,
vôa.

понедељак, фебруар 20

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar

Florbela Espanca

субота, фебруар 18

четвртак, фебруар 16

Não quero saber de grandes rodas de amigos
De filmes que me façam rir ou crescer
Não quero cervejas, nem butecos
Tanto faz o Sol, ou a cortina
A simplicidade dos pássaros
O dançar das árvores
A brisa que acaricia
Meu cachorro amigo e carente
Não os quero
Quero a introspecção da tristeza
A quietude desesperada de esperar nada
O calor dos dias quentes sem ventiladores
Todo abafo, toda a impossibilidade de escapar
Quero noticias de guerras
Estratagemas políticos
Seca, enchente, furacões
O podre dos homens
Pois a cada felicidade
Posso pensar em ser feliz sem você
Mas Eu

Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.

Álvaro de Campos

уторак, фебруар 14

O CACTO


AQUELE CACTO lembrava os gestos desesperados; da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste; carnaubais, caatingas...
Era enorme; mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças.
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
privou a cidade de iluminação e energia:
- Era belo, áspero, intratável.


(Manuel Bandeira Petrópolis, 1925)

петак, фебруар 10

Então. A cabeça girando a milhões. Aqui é fresco demais, não consigo trabalhar. O telefona toca, enxurrada de problemas.Ah, que eu quero fazer? Tomar sorvete, ganhar na loteria, ser freira,tomar um porre de gin, fugir para a bolívia, gostar de doces,estudar derrida, Cozinhar para minha mãe,engravidar, ganhar flores, arrumar um emprego,roubar um banco, comprar uma geladeira usada,fazer vestibular, pular de um prédio,casar com você, dormir para sempre. Eh, me artirculo de modo sarcásticamente claro,pra disfarçar o enorme vazio. Não tenho chão.O jeito é ir vivendo um dia, depois outro, e outro.Comigo tb é assim. Não posso sonhar. Me levaram o futuro.Essa situação analoga nos coloca diante do seguinte impasse: a potência diminui acompanhada pela redução de todas as possibilidades, ou diante do nada as possibilidades se multiplicam e e há um aumento de potência? Esse é um problema resolvido de várias formas, pois ele é aberto o sifciente para se adequar a várias lógicas.Como os bons problemas.E no fim, não há solução.Assim, triste, desse jeito.
-Traz mais uma, por favor.

5 de fevereiro de 1972

pela primeira vez resolvi entregar-me a alguém. não me parecia uma boa hora para hesitações. tudo já estava marcado. como o final do livro, marcado. o cenário lindo e perfeito. nenhum dessarranjo sem flores, nenhumas das damas sem honra, nenhuma das preces sem amém. o dia era meu, mais que de qualquer outra pessoa.

21 de outubro de 1976

acho que algo me tocou hoje, de maneira diferente. mamãe veio me visitar, trouxe pudim de pão com leite da roça. perguntou como estava. "Está ótimo!", respondi. não, não é o pudim. merda de pudim! agora estou horrível. perdi o toque. devorei o pudim com culpa.

15 de maio de 1981

só as mães são felizes. o bate bate lá fora nem parece perceber que nesse quarto sou mais... faço mais. um. dois. três. mamãe me lembra esses números. cortina. cera líquida. TV Phillips. esconde-esconde que nem percebo. esconde-esconde. ora, esconde-esconde! hoje tudo parece muito mais oculto. cortina. cera líquida. TV Phillips. sempre esconde-esconde. nos últimos tempos, tudo me conspira um segredo.

29 de novembro de 1987

o dinheiro não dá para nada. 10 mil cruzados na mão e o Sr. Sarney a nos ajudar com mais um plano de milagre. tudo comprometido. preciso de carne, leite, pão, salão e Lojas Americanas. uma família feliz, como todas as outras. apesar do Sr. Sarney. se fosse o Tancredo...

26 de setembro de 1994

encontrei estes escritos! não sabia que os tinha feito! trapaça do tempo! era outra antes de lê-los! sou outra quando os leio! devo ser outra quando queimá-los! vai embora passado!!!!! desgraça de escrita!!!!!!

15 de fevereiro de 2006

encontrei alguns papéis queimados. rabiscos em uma caderneta pequena e envermelhada do ano de 1971. telefone. feriados. fuso horário e a assinatura da minha mãe. agora começo a me lembrar do que ela sempre quis esquecer. decerto papai não teria um diário. mas se tivesse, e o encontrasse, leria precipitadamente, sem tomar nota de que, neste momento, quem o escreve serei sempre eu.

четвртак, фебруар 9

понедељак, фебруар 6

Pássaro preso. Voz rouca.
Falta espaço. Falta tempo.Falta destino.Falta.
Enquanto caminho pelas letras e linhas na praça da maior da ilusão da (humanidade: outra ilusão) penso: se eu realmente for transcendental a minha vida? Escapulia assim, tanto da dependÊncia de ser-para-o-outro quanto do problema de ser-para-mim;
Será que existe um limite pra tudo?
Acho q esbarrei em mim mesmo e agora estou voltando pra trás em mim. Multiplicação ainda, mas não produtiva. Cancerosa, destruidora. Fatal?
Desejo, pois, a abstinência séria e graciosa dos problemas banais, ônticos;
Eu me canso disso tudo, dessa coleção de coisas insignificantes.
Na vida qeu se vive não há poesia.A realidade é o massacre da poesia.(Sim, eu compreendo plenamente o suicídio. Apenas não me acho boa o suficiente para abrir mão do paradoxo.)
A vida viva se poetiza ao não (mais)nos pertencer.Nada que se vive é belo. A beleza nasce da morte, seja no tempo,seja no espaço. É na perda o lugar do sentido.


Gosto de andar pelas ruas, todas as ruas, subúrbios e zonas suls. Me agrada a possibilidade de só olhar os pequenos dramas, e não me importar com eles, não ter e nem poder fazer nada por eles, destilar deles a mais pura poesia do vivido.

недеља, фебруар 5

Abriu a porta e não era ninguém.
Voltou-me. Nada do que via lhe pertencia. Estranha no único lugar que seria seu. Sorriu-se amargamente de tanta liberdade.Entendeu que não precisva ir a lugar algum,e ao mesmo tempo que poderia tê-los todos.O que a desobrigava a ficar não a obrigava a ir. E era este estado intermediário, este hiato, que ela havia buscado (inconsciemente?). Eu estava em sua cama. Ela me via? Acendi um cigarro e esperei longos minutos.Bebia um bom vinho e a taça estava cheia o suficiente.
Voltei a fitar aquela mulher, desnuda e um tanto descabelada. Compreendi que a solidão é um estado de excesso de ser por dentro, de modo tal que nada sobra para fora.
Há anos conhecia-a, "enfermiça da vida", aquela alegria fútil de quem nunca perdeu nada, uma irritante e banal felicidade inabalável, que a conferia uma fealdade impossível de descrever. Tive preguiça quando ela se ofereceu esta noite, confesso.
Era ela a mulher que agora borbulhava, sem se dar conta, de si , de mim, do mundo. Atingia uma espécie de nirvana naquele silêncio angustioso, doído. Uma beleza incomunicável irradiava-se por toda sala.Alguma coisa estava falecendo naquele momento, com aquele silêncio.Ela agora fumava, como se conformada com a extinção. As lágrimas que vertia era tão invisivéis como eram inauditas suas palavras. Era como se quisesse guardar algo pra si, algo que fosse somente seu.
Encheu-me o copo, e eu dei um gole generoso. É preciso estar bêbado para assistir a certos nascimentos e mortes. Por um minuto ela concentrou-se em meus olhos.Lancei-lhe um olhar de discórdia, para deixar claro que ela estava certa, terminei o vinho que restava num único gole, levantei-me e sai sem fechar a porta.

петак, фебруар 3

-ainda bem que você passou por aqui. AS bizarrices são mais triviais no verão.
-acho que elas apenas te perseguem. Assim cheguei até aqui.
Realmente não há nenhum motivo para irromper o fim da tarde. O vapor quente das ruas chamusca. Eu tive um dia tão longo. Tão vazio. Tão confortante. Tão tedioso.
Ele definitivamente só poderia acabar assim, nessa conversa que é sempre a mesma, um prazeroso andar em círculo, que leva, evidentemente, ao lugar nenhum.
Na mesa ao lado um lourinho lindo fazia de tudo pra chamar atenção do cara moreno, feio e esmirrado, sentado a sua frente:"Daniel, ainda não somos casados pra eu ser obrigado a te ver tomando café e ler jornal. Eu vim conversar com você".O evidente silêncio entre o casal infelizmente não encontrava respaldo no local. Um grupo saltitante de psicólogas desfinhavam ninharias sobre filosofia e homens inteligentes.Gostei de ver como uma citação de Platão e o conselho do alternativa saúde se completavam perfeitamente para ensinar como lidar com o homem ideal.
-A humanidade é uma idéia fracassada. O Homem é um projeto falido.Pra que insitir nisso? Resta a nós escolher entre um fanatismo esclarecido ou um esclarecimento despótico...
-nos resta cancelar o café e a proposta de sobriedade. O mundo é vasto, mas indigerível fora do domínio etílico.

среда, фебруар 1

"A pior forma de desigualdade é tentar fazer duas coisas diferentes iguais."

Aristóteles

недеља, јануар 29

NÃO SE MATE

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade

петак, јануар 27

"isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além" - Paulo Leminski

уторак, јануар 24

Percebeu que seu quarto não estava mais lá. Apesar da solidez do chão, da concretude das paredes, do amparo da cama, o ambiente estava ausente. Alguma coisa o incomodava. Alheio, o que percebia era falta: do conchego, da luz, do ruído irregular da rua, da sombra que o prédio em frente criava, dando a invenção de formas ocultas e temporárias sobre os seus livros, o travesseiro, a colcha, a cama de ferro, a sua perna. Pensou no amparo que essas coisas lhe proporcionava, uma intimidade tão íntima que se ocultava de si mesma. Ninguém sabia realmente o que se passava, naquele ambiente, entre eles. Esquecera que até no momento mais íntimo, a presença dele se fazia notar pela expressão de certos gestos, a entonação de uma conversa, uma cantada, uma trepada, tudo ali remetia para um estado que, incoerentemente, parecia sempiterno. A ausência, decerto deveria ser a primeira vez que sentia-se assim, julgou lembrar, lhe indicava que algo mudara. Desconfiou que poderia ser também alguém. "Mas quem?". Foi primeiro atrás de algo.

A água ainda não tinha gelado o suficiente, mas mesmo assim tomou-a de um gole só, voltando a despejar mais água no copo vazio. Não se lembrava a que horas pegara no sono. Se foi durante a noite, se fora durante o dia, se o que pensava era matéria dos sonhos, ou se sonhara que sonhou que tudo aquilo era um sonho. O discernimento precário, fragilizado pela sonolência e o cansaço, não facilitava muito o alinhamento dos fatos, dos pensamentos, das sensações, dos sonhos. Continuava a beber água, dessa vez com o cigarro na mão. Não sabia mais se tinha esquecido todas as coisas e entrado numa realidade virtual, infinitamente subjetiva, estrangeira a qualquer signo comum, ou se, ao invés da virtualidade, aquele momento era pura realidade, descordada, sem linha de esquecimento, de memória, de nomeação. Pendeu a cabeça para o lado, num relaxamento incerto. Visou.

Substantivo: palavra que nomeia um ser ou um objeto; uma ação, qualidade, estado considerados separados dos seres ou objetos a que pertencem; nome. Não, isso não tinha muita relevância naquela hora. Não era substantivo o seu problema.

Adjetivo: palavra que modifica o substantivo, indicando qualidade, caráter, modo de ser ou estado. Eureka! Sim, parecia que começava a entender sua gramática.

Genérico e vascilante lançou que a determinação do nome oscilava diante da imprevisibilidade do estado, do modo de ser. Mas não se convenceu muito disso (talvez pela generalidade do pensamento). Tampouco se deu por vencido. Procurou e encontrou várias gramáticas portuguesas, brasileiras ora pois, da época do colégio das aulas da professora Ademarci, para certificar que as informações sobre os substantivos e os adjetivos eram dignas de atenção. Substantivo. Adjetivo. Lia e relia as infinitas variações das definições da língua. Réquiem.

Passou pelos pronomes com desastrada curiosidade, visto que ainda não buscava nada por ali. Tinha em mente que sua caça era maior, ia além. Estava no mundo, no ambiente do quarto perdido, em algum hiato que separou suas frases de uma conclusão. Desoração.

Percebeu, passado muito tempo depois, que todo seu pensamento fora tomado pelas inésimas gramáticas que percorrera, folheara, inquirira a respeito do seu estado nos últimos tempos. A ausência do quarto era quase uma reminescência. Lânquida. Sua linguagem replicava tudo aquilo que lera esvairadamente nos livros que já não saiam do seu alcance. Mas isso não era um problema para ele, certamente. Comprava gramáticas, várias e de autores diferentes. Não acreditava totalmente em nenhuma delas, mas sempre se interessava pela intriga que parecia se assomar da leitura incessante entre todas elas juntas.

"Seu troco. R$0,25." Pensou em parar de fumar, mas agora não era a hora. Estava atolado até o pescoço com os acontecimentos dos últimos tempos para poder se livrar do cigarro, sem que isso afetasse seu humor ou concentração na tarefa de busca. Mas tudo era também uma questão de estilo. Acabava-se ao pensar que tinha que parar. Incessante, excessivo, mas vazia, sempre vazia tinha sido sua busca. Não podia se larga de nada, mesmo que nada tivesse até hoje.

"Não encontrava mais o quê?"

Ao entrar no quarto, percebeu que o cigarro transformava o ambiente de ar puro e fresco em jaula de fumaça desagradável e espessa. 'Imperfume", soltou em voz inesperada. No quarto não mais fumaria. Mas antes passara os olhos sobre alguma expressão sobre o dicionário. Não lembrava o que era, mas estava lá, aberto, visível, sempre a mostra. Íntimo.

Dirigiu-se para a sala e notou que a sala estava diferente. Estranhou aquele ambiente, não reconhecia sua sala ali. "O que sucedera?". Foi ao quarto, reuniu as gramáticas, os dicionários, os livros de ortografia, sinônimo, antônimo, manuais de escrita, redação e oralidade que comprara e iniciou sua busca no chão do desconhecido. Dessa vez chamou-lhe a atenção o pronome: vocábulo que pode substituir um substantivo ou sintagma nominal. A substituição sugeria a existência e a inexistência do próprio nome, na sua gramática a essa altura já alucinada por tantos desvãoes, espelhos. Pensou nas desistências, nas resistências, nos deslocamentos, nos arranjos, nas liações... Pensou no fim de tudo. Temeu que o pretérito mais-que-perfeito fosse sua radicalidade. "Eles se foram"... percebeu a resignação por trás da oração. Mas encontrou uma definição que não cancelava o fim das coisas, pelo menos o fim eterno, metafísico. Estava ali sua busca. Seu fim e no entanto apenas o seu começo.

Pronome recíproco: pronome átono que indica que a ação expressa pelo verbo implica uma relação mútua de causa e efeito entre os agentes indicados no sujeito. Causa?, efeito?, agente? Confuso, resolveu investigar.

(Cf. para os verbetes gramaticais o Dicionário da língua portuguesa, Aurélio)
"Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele.
Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo."
Marguerite Duras, in "Mundo Exterior "

( (Carol minha amiga) ama essa autora, e há tempos queria lembrar de colocar este texto por aqui.Eu também gosto, principalmente gosto de ver pronunciar seu nome...mas gosto discordando,aliás como é minha forma mais presente de gostar de alguma coisa.Consigo discordar de absolutamente tudo dito sobre l´amour,e ainda assim gostar dela, por acha-la bela. Mas é absolutamente incabível em todos seus aspectos. Talvez, inclusive, o segredo desta beleza esteja aí, na sua irrealidade, irrealização, desejo para sempre inconcluso de unicidade. Pois nada pode ser mais verdade do que a própria mentira , e nada pode ser vivido que não seja múltiplo.L´amour est fou)

недеља, јануар 22



Viaducts by Paul Klee


Porque a oxidação que pode passar vários caminhos...

петак, јануар 20

Querer predizer o futuro (profetizar) e querer ouvir a necessidade do passado são uma única e mesma coisa, e é apenas um problema de gosto se determinada geração acha uma coisa mais plausível que a outra... Severino Kierkegaard me despeja sua migalha envolto no prateado pó que sustenta essa noite.
Pois tudo o que será já foi?
Não sei, as favas contadas e as águas passadas se destilam na minha mente,junto ao perfumado líquido com bolhinhas que despejo, por incompetência ou demência, e tudo fica muito fácil e muito obscuro ao mesmo tempo.
Tem um lugar e um tempo do qual a gente não escapa.
Esta música é muito alta e nada mais é do que uma cópia da cópia da cópía, lixo cultural.
Não, não vou te beijar. Passe-me o prato.
Um herói não se declara, por isso não posso dizer a vocÊs de como me sinto glórioso em minha marcha, fúnebre e ridícula.
Nenhum amor é menos ridículo do que o outro.
Eu sei, eu sei, pois, que ao amor corresponde o amável, e este é inexplicável.
Não sei se trata de amor...antes talvez, apenas de uma coincidência singular entre o trágico e o cômico.




O que faremos, já que é impossível dormir?
( )
:...!?
??
!
.
...
( )
zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz

уторак, јануар 17

Enfim, o fim?
Finado, fenestro, fundo, embasbacado. Por fim, apenas o fim?
fio desvelado, devorado, árduo, seco.
pra que fim?
Se findo recomeço, se morto-vivo, se calado grito, chorando rio, atenta adormeço sonhos inalcançavéis.
Perdendo eu ganho.
Certo que há um fim?
inodor, asséptico, suficiente, preciso, racional, prático, clean e funcional.
Posto que sim?
desvio, sonego, desprezo, atravesso, destrato, desdenho.Sujo, feio, barulhento, confuso,arrogante,
marcado pra morrer.
Traio minha própria finalidade.
R$ 10,00. Despedi de lance de mão. Simples adeus, para quem não suporta muito a cordialidade. Na esquina percebi que a rua não era tão longa quanto o caminho me sugeria. Hora de ir para a casa. No meio dela, no entanto, tudo se alongara. Por má sorte, deparei-me com uma Mulher, da qual já tinha uso, e a Ela, poucas vezes, me referi. Apesar de aparentemente não me interessar muito, Ela me sugeria uma conversa. "Por quê...", pensei hesitante e acautelado, deixando que minha intimidade fosse inundada por uma vontade de corpo, buraco, suor e riso. Ainda um cigarro na mão, na outra, Ela e toda a imaginação do mundo a nos afirmar. Sua fala me seduzia, pelos "s" forçados, o acento abreviado, o fim, nosso, repetidamente quase assim a escapar. Tensão e prazer, sentia Ela, me imaginava Nela e tinha uma leve irritação, decerto estava muito excitado, quando antecipava Ela, eu. Súbito. Aterrorizado por alguém que passou na rua, inopinado. "Quem era?" "Eu não posso!" "Tenho prestações, compromissos, fidelidades..." "Eu não...", toda uma série de pensamentos rápidos e judiciosos passaram por mim, naquela hora. Um turbilhão de interrogações que desfizeram minha intimidade. Agora eu era só aparência. Homem de jeans e camisa preta, cueca e sapato. Tudo me tampava, impedia, respeitava. Ela voltou a me perguntar algo que, devido o meu constrangimento com aquela situação já tramada, não ouvi direito e surdamente respondi, em tom áspero de um desatar. "Não!".

No dia seguinte acordo e percebo que Ela dorme ao meu lado, ainda descoberta, nua, maliciosa. Aquela perna... Atordoado, sem saber o que sucedera, acordei-A num gesto demente, descrente, incerto. O sol já deixava o dia quente e a previsão do dia anterior sobre as chuvas pareciam ter sido falsas. No meu quarto o cheiro de suor, sexo, colcha suja e cigarro denunciava o excessivo que sucedera à minha negação da noite anterior. Naquele momento eu me percebia só com Ela, aturdido, sim, mas só eu e Ela. Obviamente que sabia que todos estavam lá fora, o barulho me esparava para pagar as contas, ajeitar a casa, relativizar o puro caso. Percebi que o exagero da nossa intimidade desconcertou a descontrução que me civilizara na rua (civilização sugerida apenas, me lembrava disso, pela minha passada por aquele estranho naquele momento). Ela acordara sussurrando: "mais mais...!" num ritmo e sugestão que rapidamente revelaram as marcas do meu corpo. Pospor. Ouvir esse pedido e essa excitação escapando surpreendia os meus sentidos, irritados e sem tino. O corpo tem fúria. Desesperadamente, porém, eu já me via ocupado por aquele estranho, Ela, eu, nossas mãos, a rua, o buraco, as prestações, a intimidade, os R$10,00 e a hora em que sai do bar: 05:47 da manhã. Minha atitude foi talvez a mais áspera que me lembro ter tomado até hoje. Novamente Ela me fez mais uma pergunta que outra vez, desvairado, disparei (não poderia chamar aquilo de resposta) num arrazoado "Vai!".

Sentei-me na mesa, resolvi escrever. O sol batia forte. Nua e vulgarmente conhecida, me assustava a boca que me chegava fundo e a cobiça com que eu tomava o seu corpo. Uma surreal vontade poder. "O que sucedera?" Não era dia com sol e não havia Ela.

недеља, јануар 15

{(o Porto tornou-se lugar do vazio, do desencontro, da distância que a torto separa as terras de um lá de lá. não tem navio, carga, puta, guindaste, maquineiro, contêineres, lenço. nem Eu sei por quê diabos fui parar la-bas onde estou. ocaso.)

(sua periferia tem asfalto, prédio, adminstrador, criança, bar, resina: é quente, sem ser natural.)

("para quem são os adeuses?" messagio premido no próprio gesto, mail limado no apelo, na intenção, perdido, calado. )

(o Armazém me lembra uma casa antiga, pichada, despintada, rasurada, de cheiro forte e úmido, esquecida quase mesmo pelo grave barulho do mar. aquilo deixa tudo muito triste e melancólico. alguma Identidade entre o Lugar e Eu parece ter me perturbado. "por quê estar assim?", é a pergunta que faço ao Porto, ou que o Porto faz para mim. (...) uma imensa saudade de um futuro melhor separa a cidade da minha, daquela ausência. )}

субота, јануар 14

exaustão



do Lat. exhaustiore


s. f.,
exaustação;

extremo cansaço




Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
(A. de cAmpos)

петак, јануар 13

luta. relação. enter. entre. resistência. emergência. revirar-se. inscrição. marcação. contorno. perfuração. desconstrução. canção. demolição. denegação. intervenção. interferir. indeferir. indefinir. infecção. invasão. contradição. invenção. onírico. cruel. real.

oximoro.

em palavra concentro. dissolvo. (re)luto.

(para Ela)

среда, јануар 11

{Noise, Drumm, Bass (e algo inaudível para o ouvido alheio) : Wave pós-bossanova}

"Give me your eyes
That I might see the blind man kissing my hands
The sun is humming
My head turns to dust as he plays on his knees
As he plays on his knees

And the sand
And the sea grows
I close my eyes
Move slowly through drowning waves
Going away on a strange day

And I laugh as I drift in the wind
Blind
Dancing on a beach of stone
Cherish the faces as they wait for the end
Sudden hush across the water
And we're here again

And the sand
And the sea grows
I close my eyes
Move slowly through drowning waves
Going away
On a strange day

My head falls backs
And the walls crash down
And the sky
And the impossible
Explode
Held for one moment I remember a song
An impression of sound
Then everything is gone
Forever

A strange day"

(Robert Smith)

уторак, јануар 10

"O cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você."

Charles Bukowski

недеља, јануар 8

Queria contemplar a ferida. Aguçar os sentidos e me enredar nesse curioso espetáculo, de uma intensidade que não lhe podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos.
Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago.
Esta figura nebulosa, feita de retalhos,
afasta tudo que persegue.

Torna distante tudo que toca.
Flagelado e rebelde diante a fatalidade das coisas, vê a si fugir
perpetuamente.
Gozo apenas devaneios de repouso.

уторак, јануар 3

недеља, јануар 1

O que dizer sobre isto?
-Tá, é a cidade mais linda do mundo. Não precisa falar.


um ano,

Eu danço rio bebo corro sonho debocho esnobo sossego desamparo caminho aninho afago desarmo esfaqueo maltrato...
Eu nao durmo.
Achei várias vezes que o chão se modelava aos meus pés. Lembrei muito de w. benjamin.
to lendo mann.Todos me disseram que são d-efeitos colaterais. Eu ando muito bêbada.

Tá um calor dos infernos. Todos dormem. Só velhos nas ruas.Eu só precisava de uma gasosa, e qualquer motivo pra estar viva. A velha no elevador queria reclamar. A outra exigia o jornal.
Ouvi um barulho,podem ser os sonhos...

понедељак, децембар 26

Todos os homens aspiram à vida feliz e à felicidade, esta é uma coisa manifesta; mas, se muitos têm a possibilidade de alcançá-la, outros não a têm em virtude de algum azar ou vício de natureza (pois a vida feliz requer um certo acompanhamento de bens externos, em quantidade menor para os indivíduos dotados de melhores disposições e em quantidade maior para aqueles cujas disposições são piores), e outros, finalmente, tendo a possibilidade de ser felizes, imprimem desde o início uma direcção errada na sua busca da felicidade.

Aristóteles, in 'Ética a Nicómaco'

субота, децембар 24


Feliz Natal!!
"Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra não o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra está privado de o ser, em sonhos, outro rei que não o rei que é. A sua realidade não o deixa sentir."

Bernardo Soares

среда, децембар 21

Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, era. Até ao fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois "eu" é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo.
Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.

Clarice, clarice...

недеља, децембар 18

Onde Será a Terra Prometida?

Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde será a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.

A humanidade começou a mexer em máquinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: «É Deus!» E come esse Deus. Há - e é porque tudo acabou, adeus! adeus! - vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele, o mundo formiga como os insectos sobre um cadáver, os poetas passam sem terem tempo para esculpir os seus pensamentos, mal os lançam nas folhas, as folhas voam; tudo brilha e ecoa nesta mascarada, sob as suas realezas de um dia e os seus ceptros de cartão; o ouro rola, o vinho jorra, a devastidão fria ergue o vestido e bamboleia-se... horror! horror!
E depois, há sobre tudo isso um véu de que cada um tira a sua parte, para se esconder o mais possível.
Escárnio! horror! horror!

Gustave Flaubert, in 'Memória de um Louco'

четвртак, децембар 15

понедељак, децембар 12

A vida entra sem pedir licença.
Você não pode lutar.
Infiltra-se tão no íntimo que nos rouba até os desejos mais subterrâneos. Estas relações tão habituais quanto inusitadas, irradiam-se, palpitantes. você entenderá um dia? Possibilidade de tudo, impossibilidade de tudo.

- sua condição é a de ser enterrado vivo.Morte assim que sobrevive.

Vc se preocupa porque sabe que não é capaz de ser realmente inexistência, não pode permanecer irreal, um nada sem lembranças. Você inveja a mim, ou ao que pensa eu sê-lo.

-Sua claridade é insuperável."sans destin, pareils au nourrisson, qui dort, respirent Ceux du ciel".

Resolvemos dizer a você, porque concluimos que não há mais nada a dizer.Chegamos ao final do livro. Tardiamente. Assim como o vício sempre se sobrepõe a virtude, e o comunismo é o momento mais estúpido do espírito culto. Todos, todavia, inevitáveis. Daí a característica inequívoca alívio perturbador indigente e pleno, que está em mim e em ti. A imensa amargura é sabê-la inefável.
A verdadeira arte de viajar


A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!


(Quintana in “A cor do invisível”)

среда, децембар 7

(a los ojos de un cantante desesperado)

... alguma coisa a gente tem que amar
mas, o quê, eu não sei mais!

(hermano)

субота, децембар 3

A vida se resume:
Los trabajos y las noches
Ainda que me falte trilhar todos os caminhos
já me acostumei a este funesto silêncio
a percepção mutilada
a palavra petrificada
a ausência de uma greta no muro
esta obesa melâncolia que pesa e enverga meu corpo
sólo un dibujo
Artefato deformado, inútil.
Onde estou? perdida no desentendimento dessa urgência delicada, mas incompreensível.
soy pájaro, jaula, mano asesina niña muerta, amazona, juglar , princesa, en tanto, pequeña náufraga, la que murió de su vestido azul.
Este tédio.
Ele se matou quando, por fim, deu-se conta de que a realidade é incomunicável, e atroz.

уторак, новембар 29

A incerteza é um lugar onde, distraída, a angústia esquece o nome das coisas.
As fechaduras dançam com suas chaves valsas sem-fim.
Nas noites, nos bares, todos e suas máscaras.
Pra que por verdade em tudo isso?
Eu te esbarro, vc me apunha-la. Eu desapareço, vc me persegue. Quem caça?
Pra quem isso é só graça? Ao fim, todos e suas máscaras.Uma dança de desejos solitários.
Minha gargalhada tem a dor de tudo que só pode, e nunca será. O que quero, quando toco, se afasta, e me leva até você.O que eu quero se alastra, mas só me aparece você.
Um sonho questionado é como um coração partido.

недеља, новембар 27

Longa estrada de mão dupla.
Eu, Circe irreal dos febris,
que sadicamente tateia tua pele com espinhos,
escondo as feridas e saio às ruas.
O céu me afaga.
Finjo
danço
corro
Por um leve momento,
esqueço a infidelidade das borboletas.

петак, новембар 25

четвртак, новембар 24

Bom dia tristeza
Que tarde tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando até meio triste
De estar tanto tempo longe de você
Se chegue tristeza
Se sente comigo
Aqui nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

(Adoniran Barbosa e Vinícius de Moraes)

уторак, новембар 22

"... em torno dele soprava o vazio em que um homem se encontra quando vai criar. Desolado, ele provocara a grande solidão. (...) E como um velho que não aprendeu a ler ele mediu a distância que o separava da palavra."

Clarice Lispector, A Maçã no Escuro

субота, новембар 19

петак, новембар 18

A poesia noturna. Ser sem pele, sem dor, sem ser. A tristeza é uma maneira da gente se salvar depois?
Inquieto-me, fugídio, chovo.
Algo quer saltar, transborda-me rasgando.Sangra.
Mas tomo uma cerveja e fica tudo bem.
Tenho uns desafios, alguns amigos, livros queridos, uns sons, dores fundamentais, princípios fluídos, e uma fome insaciável.

Sou bonita que dá pro gasto.
No momento, tenho até um louco particular.
Não sei francês.

Não tenho paciência. Nem eu.
Queria dormir. Então fica calada, logo, logo, o sono vêm. Apague todas as luzes e espere. Mas todos os dias são iguais.Eh, caminha o mundo para uma enorme uniformização, mas dorme. Os franceses aprenderam a ver a diferença na miséria.
Nós também.

среда, новембар 16

(Pelo sambinha de ontem, e por tudo que acontece...)

Esquece o nosso amor, vê se esquece.
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que eu já não sei mais amar.
Vai chorar, vai sofrer, e você não merece,
Mas isso acontece.
Acontece que o meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio.
Se eu ainda pudesse fingir que te amo,
Ah, se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo,
Isso não acontece.

Cartola

понедељак, новембар 14

недеља, новембар 13

Multiplicidade ou formalização?
Nasce um domingo variadíssimo nos seus lances do mesmo. Ainda assim, planejo, descrente é verdade, desenterrar um conflito ou um desafio instigante que me distraia ou me apazigue. Sussurro a ti, mas não espalhe: desconfio que a paz está no caos, na insuficiência, naquilo que quase-é, e se esvai assim mesmo, deixando (apenas?) um indecidível desejo.
Esta inevitável precipitação me consola porque me angustia.
Onde esqueci minha razão?
Perco-me em estratégias e táticas inutéis para escapar da truculenta cilada que a sociedade burguesa nos prepara. Armo-me de uma alegria afiada, altas doses de ironia e sarcasmo e recrio deliberamente incertezas para que nada se perca nesse mundo fosco do cotidiano urbano.
E se este pretenso desajuste não é o bastante, em todo caso me separa e me afasta dos desbotados cheio de escrúpulos.

петак, новембар 11

Princípio da Incerteza


- René Magritte, 1944

уторак, новембар 8

Tem chovido demais.
Nunca sei escrever sem copiar de alguém. Também não sei não escrever. E menos sentir o que escrevo.Não que não sinta. Só não sou boa nisto, eu acho. Nunca sei se sinto o que sinto, ou se me distraio com o reflexo interno do quadrado de espelhos que olho de fora. Às vezes alguem abre a porta, ou me oferece a janela. Quem sabe alguém ainda parte meu coração? Eu sei, ainda não decidi se tenho um coração, mas se eu tiver ele é seu.
Brinco de ser ética como quem brinca de deus, ou compra um par de sapatos. Eu, os vagalumes, os navios e os submarinos não dormimos. Anda fazendo calor demais. Porque tanto a fazer?
Volta a chuva e ainda tem sol.É só porque os dias tem longuíssima duração no horário de verão( Braudel ia adorar...).
E eu nessa varanda que é a coisa mais minha dos últimos tempos.

недеља, новембар 6

Estou muito compenetrada no meu pânico.
Lá de dentro tomando medidas preventivas.
Minha filha, lê isso aqui quando você tiver perdido as esperanças como hoje. Você é meu único tesouro. Você morde e grita e não me deixa em paz, mas você é meu único tesouro.
Então escuta só; toma esse xarope, deita no meu colo, e descansa aqui; dorme que eu cuido de você e não me assusto; dorme, dorme. Eu sou grande, fico acordada até mais tarde.

Nada lá fora e minha cabeça fala sozinha, assim, com movimento pendular de aparecer e desaparecer. Guarde bem este quarto parado com máquinas de distrair, cabeça e pêndulo batendo. Guarde bem para mais tarde. Fica contando ponto.

субота, новембар 5

Quando meu amor se esvaiu
Não houveram muitas palavras
Não aconteceram ofensas
Nem desafetos
ou desamor
Foi impessoal
Sem choro
Nem lamurias
Sem arrependimentos pelo tempo de tentativas
(tanto tempo)
Não houve alivio
Nem felicidade
Não houve nada
Tudo parece continuo
Do nada ao nada

Sem ilusões de comunhão
Amanhã pensarei em esperanças

среда, новембар 2

понедељак, октобар 31

Acaricia minha nuca, e deixa a noite chegar. É bom nunca voltar pra casa, é bom nunca ter onde ir. Eu vivo? Eu só quero. Os confins do mundo são meus, e por isso fico aqui, inerte, esperando como vírus incubado, que alguma coisa me surpreenda. Poesia é coisa muita profunda, ressoa muita longa. Corta, rasga, desmancha, desconfigura. A poesia é um Universal que se odeia. Há quem se perde no emaranhado do próprio cotidiano. Não vou mais poder tocar, já não vejo. Já não sei mais nem se existe. Tenho que ir, não posso esperar. É preciso saber desatar os nós. Sou tão gutural... apenas.
O discernimento me traz todas as dores do mundo.
Então, embriago-me.
Vem?

субота, октобар 29

(Para Luciano Mattar...)


среда, октобар 26

Respeito muito minhas lágrimas, mas muito mais minha risada. Porque quando eu amo, eu odeio, eu adoro. E Diante disso, resta dançar um tango argentino.
O menino dorme des-sossegado: o mundo é grande!
Ele não perde por esperar.
Distribuirei entorpecentes ou semearei cartas suicidas?

Meus cansaços são ateus dos deuses da minha escolha...
Eu, também sou um homem traduzido, transportado, traído, traidor.Traduttore, traditore:
ambivalência, anfibolia, anfibologia, asteísmo, double entendre e equívoco.
Sous les espèces d'or d'un sein reconnaissant!